"É tudo nosso, nada deles!", esse é o refrão mais cantado pelos foliões nos circuitos do #Carnaval de Salvador em 2015. Se a canção de Igor Kannário será escolhida pela mídia burguesa como a melhor da folia baiana, isso não tem importância, pois, ela já foi escolhida por quem, de fato, a levou para o Carnaval, o povo. A aproximação "marqueteira" de autoridades políticas à figura do "príncipe do gueto" não o deslegitima como principal representante, hoje, da #Música oriunda da favela soteropolitana, que é o que de mais interessante há no já tão desgastado Carnaval "pop" de Salvador.

Quem acompanhou a passagem de Igor Kannário nessa segunda-feira, 16, pelo circuito Osmar (Campo Grande-Praça Castro Alves), pôde testemunhar a força que a música das ruas tem.

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E é essa música, verdadeiramente popular, que dá sentido ao Carnaval da Bahia. O fenômeno Igor Kannário tem sido tratado de forma desleixada pela mídia baiana, como uma espécie de cegueira hipócrita, que não quer reconhecer um representante do pagode como a maior estrela desse Carnaval, ou, pelo menos, o que de mais enérgico e grandioso se pôde evidenciar nessa festa, cada vez mais repetitiva, "certinha" e "protegidinha" pelos camarotes luxuosos da elite soteropolitana.

O que certamente incomodam "eles" é o fato de o artista mais cantado no Carnaval não ter o aspecto de "gente bonita", como os vocalistas das bandas de axé music. O visual de Kannário, associado pela elite à imagem de ladrão ou brown, é o visual que reflete o atual jovem da periferia, que continua discriminado e excluído.

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O "nariz torto" da mídia, que hoje interrompeu as transmissões durante a passagem do "príncipe" pelo Campo Grande, com algumas exceções, se deve também a questão da violência, estupidamente associada à música de Kannário. Trata-se de mais uma hipocrisia da mídia burguesa, que nunca perseguiu Bell Marques, pelas constantes brigas durante a passagem do Chicletão na avenida. Porque será?

Hipocrisias à parte, o certo é que o papel de criticar a valoração da música cabe aos críticos musicais, que estudam para isso. O papel do jornalista de imprensa é tornar visível o fenômeno social. Por isso Caetano Veloso se indignou, ao ter suas falas sobre Igor Kannário cortadas, em uma recente entrevista dada a uma TV local. Ao invés de negar o fenômeno Kannário, e de associar essa música a algo de marginal, a mídia precisa na verdade é cumprir com o seu papel social e tornar público o que já é do público. É preciso noticiar que, no Carnaval em que se comemoraram 30 anos de um obsoleto axé music, o canto que levantou o povo nas ruas foi de um Kannário, que também é "príncipe", mas que é mesmo todo do gueto, e nem um pedacinho "deles". #Opinião