Parecia cansado da caça e da vida que lhe deram. Fazer o que? Se matar não vai. Poderia se atirar na frente do primeiro carro que passasse na estrada. Ser esmagado de vez. Por fim ao estrago já iniciado. Mas não. Chegou como se não quisesse nada para não assustar “os donos do lugar”. Escorou-se no chão e apreciou o que os homens chamam de mar. Parecia pensar na vida. Descansava um pouco, antes de voltar à peleja. O vento batia em seu rosto e sacudia seus pelos. Sentia o prazer. Será que tem nome? O chamaram por cachorro. “De rua” era o seu sobrenome.

O tempo passou ali devagar. Sabia reconhecer o belo daquele resto de sol caindo sobre a imensidão azul. Os homens em volta sorriram ao vê-lo. Acharam incrível ele ali. “Olha até o cachorro veio ver o mar”, disse um deles. O apreciador notado fingiu que não ouviu, parecia não tolerar a ignorância dos humanos. Não deu atenção aos conceitos e pré-conceitos criados por estes. Não estava ali para ouvir burrices. Estava em plena meditação. Diferente de todos naquele local, era um visitante assíduo. Já era de casa. Estava em sua varanda. Aquela vista já o pertencia, diariamente.

Ficou até aquele quadro perder a cor e as luzes do homem estuprar as luzes da noite. Enquanto permaneceu, foi como um imperador em seu reino. Certo que entre todos, era o que mais gozava daquela extraordinária experiência. Era o que melhor sabia fazer. Foi o único que viu tudo. Todos os detalhes. Livre de crença, educação, dogmas e “inteligências”. Não precisou de nada disso para se reconhecer no que estava vendo.

Não foi aculturado. Não teve pais para ditar o certo e apontar o caminho com dedos arrogantes. Nem conheceu seu pai. Se perdeu da mãe há muito, se a vê nem a reconhece. Irmãos, primos, namoradas, nunca teve nada disso também. Fez algumas amizades, dividiu aventuras, e depois voltou para si e pro seu mundo. De Deus também nunca ouviu falar. Era livre. Completamente seu. Tem sua visão poética particular. Dono e criador do seu próprio ponto de vista.

No fim de tudo, ao léu, o cachorro pagão levantou e se foi. Mas é certo que amanhã estará de volta para cumprir seu ritual. Um jovem que estava próximo e observou o cão a todo instante desde que chegou ali, impressionado com o que acabara de presenciar, ou talvez com a incapacidade de enxergar o que o cão visualizou atentamente, ao vê este ir embora comentou com um amigo distraído ao seu lado: “Nesse mundo, meu caro, tem gente que é pior do que bicho... E tem bicho que é bem melhor do que gente”. #Cães #Literatura