A atual crise no abastecimento de água do estado de São Paulo ilustra o quanto avançamos e temos que avançar na democratização da gestão dos assuntos de interesse difuso. Apesar das críticas resultantes da não inclusão do colapso hídrico paulista nas principais reinvindicações das passeatas de 15 de março, existe uma pauta clara, propositiva e participativa de reivindicações, alternativas e ações nesse sentido. Isso fica evidente, entre outras iniciativas, através da criação da Carta da "Aliança pela água de São Paulo", coalizão de sociedade civil formada por mais de 40 entidades desde 2014 com o objetivo de, segundo ela, "contribuir com a construção de segurança hídrica em São Paulo, por meio da coordenação das várias iniciativas já em curso e da potencialização da capacidade da sociedade de debater e executar novas medidas".

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No entanto, o próprio documento da Aliança já levanta alguns dos desafios a serem enfrentados. Os pontos centrais destacados são o uso não racional da água; desmatamentos e poluição; seca extrema; pouco espaço de participação e transparência na gestão da água; e, tudo isso agravado por um quinto fator: a resistência governamental para decisões mais firmes em um ano eleitoral. Mas, uma análise mais detalhada permite percebermos que não se trata de um problema que começou nos últimos anos. Só estamos nesta situação por uma combinação de fatores que remota a década de 1960: erros de planejamento, descaso e privatização da distribuição das águas. A construção do sistema Cantareira para abastecer a grande São Paulo e ações de estímulo ao desenvolvimento da região de Campinas - com a construção da Refinaria do Planalto (Replan) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - resultaram em problemas ambientais evidenciados pela exaustão de recursos: poluição, falta de água e morte de peixes.

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A primeira resposta coletiva a esses problemas veio em 1989, com a criação do Consórcio Intermunicipal das Bacias Hidrográficas dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Consórcio PCJ). O consórcio PCJ, composto por usuários de água para fins econômicos e prefeituras da região, tinha como principais objetivos reivindicar melhoria na qualidade das águas e aumento da participação em decisões. Mas essa participação começou a se efetivar somente em 1993, com a criação do Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Comitê PCJ), órgão colegiado, consultivo e deliberativo de gestão das águas. Quem acompanha os trabalhos do Comitê PCJ sabe que ele já alerta sobre a possibilidade de colapso no abastecimento de água desde o início dos seus trabalhos, na década de 1990.

O sistema Cantareira serve mais da metade da população da grande São Paulo. Mas, é formado pelas nascentes dos rios que abastecem também a região metropolitana de Campinas, com quase 3 milhões de habitantes. Lá, também se sente há décadas os efeitos do mau planejamento, evidenciado, agora, que vemos os resultados da demora em estruturar alternativas para abastecimento em caso de falta de chuvas, mesmo o problema existindo há décadas. É preciso pensar, portanto, além da resolução desse problema pontual da atual #Crise de abastecimento. Os comitês de bacias hidrográficas precisam se tornar espaços mais decisórios do que consultivos, mais participativos do que representativos, pois, somente assim, as principais decisões sobre a gestão das águas deixarão de ficar capturados somente por interesses privados e partidários.