Quem observa os mendigos nas calçadas e ruas da cidade dormindo ao relento, nem de longe imagina que essas pessoas já viraram e caíram da tábua da beirada da vida, e agora não passam de anônimos, marginalizados pela sociedade.

Há ainda uma perspectiva que passa ao largo, mas a comunidade nem de longe imagina o fato de existir pessoas que andam pela tábua a um passo de perderem tudo o que possuem, mas que lutam com dignidade para sobreviver.

Todos os dias às 18 horas, homens, mulheres, idosos e idosas aguardam com ansiedade o momento de entrar no Albergue Francisco de Assis, na Rua Saldanha Marinho, para conseguir repousar da longa jornada diária em Campos dos Goytacazes.

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Ao entrar, eles aguardam a triagem da assistente social, que faz inúmeras perguntas sócio-econômicas e da vida pregressa de cada um que entra no Albergue.

Depois esperam pacientemente pela hora do jantar e posteriormente o momento de entrar no quarto e repousar o corpo já cansado e fatigado de um longo dia de batalhas.

Quando a noite chega, o sono vem junto trazendo consigo o descanso para quem buscou lá fora uma chance de ganhar a vida com o suor do seu trabalho.

Adormecer e se aconchegar naquele amplo salão cheio de camas é o desejo da maioria dos homens e mulheres que não sabem o dia e a hora em que conseguirão reunir recursos financeiros para galgar um posto maior na escala da vida.

Os ventiladores de teto cantam e zunem por sob suas cabeças, como uma melodia que acalma os ânimos e os faz adormecer.

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O cansaço do corpo faz com que muitos desmaiem sob suas camas arrumadas sob colchões macios em camas de ferro. De vez em quando, algumas dessas camas estalam ou rangem suas ferragens demonstrando que o cidadão sob ela entra em sono profundo.

Leves roncos são ouvidos naquele salão, por um ou outro anônimo que estatela-se sob a cama.

Sem nenhum relógio por perto para contar e ver as horas passarem, esses anônimos adormecem e torcem para que a hora passe devagar, mas ainda assim há aqueles que não conseguem pregar os olhos e relaxar sob suas camas. Uma vez que a primeira vez em um colchão desconhecido é sempre mais difícil, e o sono custa a chegar.

Roncos de motores de veículos e motos rasgam a noite e ali naquele salão dez homens repousam seus corpos fatigados.

As horas passam, e no meio da noite, de vez em quando, outro anônimo, como zumbi irrompe pelo quarto para ir ao banheiro, sem ter a mínima idéia do quanto já dormiram, uma vez que a lâmpada do salão principal ainda se mantém acesa incomodando o sono daqueles que foram acostumados com o escuro para dormir.

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Quando ninguém mais imagina que algo possa acontecer, o segurança irrompe pela porta trancada, acende a luz e acorda a todos indistintamente informando-os de que o café já está na mesa e é hora de levantar, se lavar e romper porta à fora para o novo dia que já vem raiando.

E pela madrugada ainda escura do novo dia, ou pelos primeiros raios de sol que colorem o céu, lá se vão aqueles homens iniciar uma nova jornada na tentativa de ganhar a vida com o suor do seu trabalho e continuar a viver na tábua da beirada da vida, esperando que um dia consigam finalmente alcançar uma graça divina de auferir recursos para alugarem um imóvel, mesmo que seja um casebre, para saírem daquela situação catastrófica de quem tem a vida por um fio. #Desemprego #Violência #Doença