Fruto de uma pesquisa de mais de duas décadas, o sociólogo José de Souza Martins apresenta o livro Linchamentos: a justiça popular no Brasil (Contexto, 2015), baseado na análise de 2.028 casos de linchamento.

O primeiro caso que se tem registro data do ano de 1585, em Salvador, quando um índio, supostamente catequizado, teria dito que era o papa, desagradando fiéis e vindo a ser espancado pelos cristãos até a morte.

430 anos depois, a prática é a mesma: um grupo de pessoas, que geralmente se dizem "pessoas de bem", se reúne e agride com socos, pontapés e qualquer objeto que estiver por perto, um suposto suspeito em praça pública, tentando fazer o que consideram "justiça com as próprias mãos".

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"O sentimento de que a melhor justiça é feita com as próprias mãos torna Brasil campeão da crueldade", de acordo com Souza Martins em entrevista ao El País Brasil. Para ele, um dos fatores que leva ao linchamento é a falta de confiança da população nas instituições judiciárias.

O autor ainda caracteriza os episódios como "ritual de loucura coletiva" e traz o dado revelador de que um milhão de pessoas já participaram de linchamentos no país apenas nos últimos 60 anos.

Linchadores no Brasil: Crueldade e impunidade

Conforme o sociólogo, o país tem um linchamento por dia, e isso "não é nada excepcional nesta rotina de #Violência", pois poucos casos vêm a público, e aqueles que são divulgados teriam papel fundamental para incentivar a reprodução de novas violências.

Confira abaixo alguns dos dados levantados pelo estudo do sociólogo:

- 1.150 (44,6%) pessoas foram salvas após tentativa de linchamento

- 782 (47,3%) pessoas morreram em decorrência do linchamento

- 439 (36%) ficaram feridas

O estudo aponta que linchadores raramente são punidos ou mesmo indiciados, mesmo que somente agressão física já se configure como crime.

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Para o autor, a polícia tem dificuldade em identificar agressores e, quando consegue, "abrem processo contra meia dúzia por violência, ou assassinato, e se forem a julgamento os advogados podem pedir a atenuação da pena por crime coletivo e, provavelmente, não vai acontecer nada".

Como reduzir o número de casos de linchamento no Brasil

Para reduzir o número dos episódios, o sociólogo afirma que somente uma resposta contundente da sociedade civil pode ser uma esperança, sendo necessária uma mudança de cultura e da própria organização social para isso.

No momento em que as pessoas deixarem de ver o linchamento como uma forma de violência punitiva culturalmente aceita, e a sociedade passar a repudiar ações violentas e cruéis de justiceiros, talvez a justiça realmente possa ser feita. #Legislação #Sistema prisional brasileiro