Você, leitor, sabe o que significa “duplipensar”? Encontrado na clássica obra de George Orwell, 1984, é a “capacidade de guardar simultaneamente na cabeça, duas crenças contraditórias e aceitar a ambas”. Na distopia, o 'duplipensar' é usado pelas autoridades para suprimir por completo o pensamento humano independente, pois, para os tiranos, “o poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender”.

Caso o leitor ainda não tenha percebido a relação entre o real e o literário, sim, o nosso governo aprecia este recurso de anestesia mental coletiva, e isto tornou-se evidente durante o acampamento dos manifestantes no gramado do Congresso Nacional.

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Há pouco mais de um mês, o Movimento Brasil Livre iniciou um acampamento no gramado do Congresso Nacional a fim de pressionar o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) a tomar uma decisão sobre o Impeachment de Dilma Rousseff. O ato também reuniu outros grupos oposicionistas, como o Acampamento Patriota, que pedia a saída de Dilma através da intervenção militar constitucional.

Entretanto, militantes do partido governista – o mesmo governo que declara ser “a favor da democracia” – ocuparam outra ala da Esplanada, aguardando, segundo o presidente da Central Única dos Trabalhadores, Vagner Freitas, durante o 3º Congresso Nacional da Juventude do PT, apenas uma ordem para retirar “a tapas” todos os manifestantes pró-impeachment.

A situação se agravou quando integrantes do Movimento Negro, durante a Marcha das Mulheres Negras, entraram em conflito com os manifestantes acampados.

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Um parêntese deve ser aberto: já é notório que o movimento negro possui estreitas relações com o governo “a favor da democracia”, principalmente após o Dialoga Pernambuco, evento que reuniu em agosto deste ano diversos “movimentos sociais”, a fim de jurar fidelidade e militância ao governo em troca de privilégios que favorecerão apenas aos próprios movimentos.

Talvez por obra do destino, o deputado petista Paulo Pimenta (PT-RS) estava presente no conflito, onde queixou ter sido atingido por gás de pimenta. Os militantes, por sua vez, agrediram uma jovem manifestante e tentaram derrubar um boneco inflável que estava no acampamento. Dois dos manifestantes acampados, policiais civis, deram tiros para o alto para dispersar a multidão.

Não se sabe se os militantes receberam alguma punição. Quanto aos manifestantes, porém, o governo mostrou-se implacável: o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, em reunião com os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, decidiram que todos os acampados tinham 48 horas para se retirar do local.

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Mas um detalhe: apenas os acampados pró-impeachment. Segundo a decisão, “a ordem e a segurança pública” só poderiam ser restauradas com a saída dos manifestantes.

Em resposta, os acampados disseram que resistiriam e se possível até acionariam a Justiça para derrubar as ordens do governo, porém, foram forçados a ceder diante do envio de equipes da Polícia Legislativa, do Corpo de Bombeiros, do Detran, de uma Polícia Militar com carta branca para usar “meios alternativos” caso a resistência persistisse e (pasmem!) dos militantes do governo petista acampados na Esplanada.

Mas em meio a expulsão, os grupos pró-impeachment declararam que as suas lutas não acabaram, como afirma o manifestante Ricardo Rocci, de 45 anos: “Decidimos sair, mas não vamos desistir do Brasil”.

'Duplipensar', resumindo, é capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e aceitá-las ambas; ato de manipular a linguagem e a expressão para causar confusão à mente humana diante da incompatibilidade entre o discurso e a ação de fato, sendo extremamente nocivo à inteligência humana. Guerra é paz, liberdade é escravidão, democracia é ditadura.

Caso o leitor ainda não tenha percebido a relação entre o real e o literário, sim, o nosso governo aprecia esta barbaridade. Sim, George Orwell tem razão. #Opinião #Crise no Brasil #Protestos no Brasil