Sexta-feira, 29 de janeiro. Era início da noite quando se iniciou em Porto Alegre um dos mais fortes temporais que já atingiram a cidade.

A chuva, acompanhada de ventos com até 120 km/h (o que fez o Serviço de Meteorologia de Porto Alegre classificar os danos como de "um furacão de Classe 1"), instaurou o caos em nossa metrópole. Postes de metal foram retorcidos, outros (de concreto) quebrados, árvores arrancadas pela raiz ou (quando podres) completamente estilhaçadas. Casas destelhadas, cobertura de postos de gasolina arrancadas, telhados de shoppings desabando. A rua Gonçalo de Carvalho, decretada Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental do município em 2006 e que ficou conhecida como a "rua mais bela do mundo", foi devastada.

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Mais de 320 mil pessoas ficaram sem luz, após este "furacão". E foi aí que os problemas começaram.

Claro, as árvores caídas são um problema. E como não são poucas, numa cidade sem planejamento na escolha de espécies menos suscetíveis ao ataque de pragas e deficiências históricas na manutenção das mesmas (remoção, podas, etc.), o problema é grande. Ruas bloqueadas, postes derrubados pelo arrasto de fios causado pela queda das árvores, semáforos idem.

Só que a fala de luz causa um efeito em cascata muito mais devastador.

Primeiro, serviços básicos (públicos e privados) são atingidos. Hospitais com atendimento comprometido, trânsito sem sinalização, bancos, farmácias, lojas... todos eles, mais ou menos dependentes do fornecimento de energia elétrica, ficam comprometidos em seu funcionamento.

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As Estações de Tratamento e Bombeamento, sem luz, pararam de tratar e bombear. Rapidamente, boa parte da cidade teve seu fornecimento de água interrompido. Novamente, o caos. Na maioria dos casos, por não ser um desligamento programado (quando a empresa de fornecimento avisa o corte com antecedência, para efetuar reparos na rede, por exemplo), não há tempo hábil para armazenar água. O que tem na caixa d'água se esvai rapidamente e as torneiras secam de uma hora para outra. Não há água para beber, para cozinhar, para tomar banho.

Terceiro, a água potável no comércio passa a ser disputada como nos filmes "Mad Max" ou "Waterworld": quando não acaba rapidamente o estoque de garrafas (para aqueles que podem comprá-las, lógico), alguns comerciantes inescrupulosos cedem à tentação e majoram os preços em 20, 30, 40%. 

Quarto e último - e, na minha opinião como biólogo, o mais triste: atrás do local onde moro está a nascente do Arroio Feijó, que divide os municípios de Porto Alegre, Viamão e Alvorada.

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E já nesta nascente o que encontramos é água contaminada. Ou seja, temos água em nosso quintal, mas não podemos utilizá-la.

Hoje é Domingo. Ainda não temos água, assim como boa parte da cidade. A luz também não está disponível para todos.

Um dia, num futuro próximo, estaremos no mato, em farrapos, usando arco e flecha. Não lutando contra zumbis ou sobrevivendo após um asteroide destruir tudo à nossa volta. No escuro, com frio, lutaremos por um copo d'água. #Natureza #Chuvas Torrenciais