O termo “ideologia”, por si só, apresenta significados e usos diversos. Pensando no significado mais amplo e difundido, podemos entender a ideologia como um conjunto de ideias de um sujeito ou de determinado grupo que servem como base para sua visão de mundo e para suas ações sócio-políticas. De maneira crítica, alguns autores enxergam a ideologia como um instrumento de dominação, uma forma de se estabelecer o poder por meio da persuasão do indivíduo para que ele acredite em um conjunto de ideias propriamente ditas.

Pensando nessa concepção, indivíduos conservadores cunharam recentemente a noção de “ideologia de gênero” associada negativamente ao pensamento daqueles que acreditam no gênero como elemento à parte do chamado sexo biológico.

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Contudo, ao procurar desacreditar a validade do termo “gênero”, essas pessoas ignoram que todo e qualquer sujeito vive em sociedade – e que essa vivência influencia, inerentemente, a forma como a pessoa irá se expressar. Quando “gênero” é encarado separadamente de “sexo” busca-se delimitar, de alguma forma, quais os elementos de fato sexuais (ou seja, biológicos) e quais são adquiridos por meio da vivência e da experiência. Podemos dizer, por exemplo, que uma menina nasce com vagina e útero – são elementos biológicos – mas não podemos afirmar que ela será delicada, emotiva e submissa – pois esses fatores não são inerentes à personalidade feminina, mas algo que varia de indivíduo para indivíduo.

Transgeneridade

Além dos limites relativamente claros, há também outras questões bastante complexas que são levadas em conta quando se pretende separar “gênero” de “sexo”, uma vez que o cérebro é um órgão que ainda não conhecemos em sua totalidade e parece trazer desafios diversos, no que diz respeito a condições como a transgeneridade.

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Quando uma pessoa nasce, dizemos que é “menino” ou “menina” com base em seus órgãos genitais e, idealmente, em seus órgãos reprodutores internos. Digo idealmente, pois podemos nos enganar quanto à aparência desses órgãos genitais e classificar erroneamente o bebê  – aqui entra a questão das pessoas intersexo.

Ademais, na medida em que a criança vai crescendo, ela nota o que acontece ao seu redor e como outros meninos e meninas – bem como homens e mulheres – agem, e aos poucos ela vai agindo da mesma maneira. Quando uma pessoa age, ela está se expressando; ela fala com seu corpo, com seu #Comportamento e com seus atos.

Se uma criança se percebe como menina, ela irá copiar os atos de outras meninas e mulheres, para que as pessoas ao seu redor a enxerguem como menina. A isso chamamos de expressão de gênero. É importante que a gente compreenda: não se trata de uma escolha, a pessoa vai se percebendo assim. Nós não escolhemos nosso gênero, nós fomos percebendo quem e o que éramos enquanto crescíamos.

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Quando essa criança que se percebe como menina tem órgãos genitais de um menino, ela é classificada como transgênero. Há diversos estudos sobre as possíveis causas dessa condição e de como ela costuma se revelar muito cedo – basicamente, esses meninos se percebem como meninas ao mesmo tempo em que outros meninos se percebem como meninos, ainda em idade pré-púbere. Vale repetir: não é uma escolha.

Portanto, se existe uma ideologia no que concerne ao gênero, seria a de que muitos de nós acreditam na aceitação da pessoa transgênero como ela é, como ela se percebe. Sabe-se que não existe forma de mudar ou “corrigir” essa percepção de si que não é compatível com o próprio corpo. Assim, o ideal seria aceitar essas pessoas, compreendendo o que sentem e o sofrimento pelo qual passam diante dessa incompatibilidade entre sua mente e seu físico.

Quando a família e as pessoas próximas acolhem o indivíduo transgênero, comprovadamente, há menos chances de esse sujeito apresentar depressão ou pensamentos suicidas. Com o suporte daqueles com quem convive, a pessoa se sente inclusive mais forte para enfrentar os preconceitos e as visões deturpadas que a sociedade tem sobre ela.