Nos últimos dias, a imprensa mineira deu grande destaque ao suposto assalto seguido de sequestro de uma adolescente de 15 anos. Ela teria sido roubada ao descer de um ônibus em Belo Horizonte, colocada no porta-malas de um carro e libertada na região de João Molevade, a mais de 100 km de distância da capital.

O sumiço da menina mais tarde foi constatado facilmente pela polícia como um desaparecimento voluntário. A garota fugiu de casa e inventou o crime para se justificar.

Não se deve julgá-la, longe disso. Trata-se de uma criança com seus conflitos, suas dúvidas, sua história. Mas julgar a cobertura do jornal O Tempo, sim, é possível.

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O jornal, talvez pela sua sede por dramas, assumiu imediatamente o discurso da garota. “Ela foi roubada por dois homens”, “abandonada na estrada que liga a capital a outra cidade”, publicou o jornal com uma certeza absoluta de que tudo era verdade em reportagem de 22 de fevereiro intitulada "Adolescente desaparecida em BH é encontrada em João Molevade". A publicação ainda critica a posição da Polícia Civil. “A adolescente não é obrigada a prestar depoimento", como informou a polícia, "já que ela é a vítima do caso”, tomando mais uma vez como verdade o crime. Em outra reportagem, que o jornal retirou do ar, havia inclusive ilustrações reconstruindo passo a passo a barbaridade dos bandidos.

Será que em nenhum momento passou pela cabeça daquela redação a pergunta: Porque diabos alguém iria roubar o celular de uma criança e viajar 100 km com ela no porta-malas de um carro e nem sequer pedir por resgate?

Não.

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Não passou. Isso porque o drama já estava instalado nas redes sociais e o jornal não poderia de forma alguma questionar aquela comoção toda. Escutaram-se muitas fontes sem fazer nenhuma pergunta correta. O discurso já estava dado, bastando aos repórteres o talento de transformá-lo em texto.

O jornal engoliu a história fantasiosa de uma adolescente de 15 anos. Erro que no jornalismo chamamos de “barriga” - quando uma mentira é tomada como verdade ou uma história é mal apurada. As publicações, inclusive, foram removidas da Fanpage do jornal no Facebook.

Os concorrentes, Estado de Minas e Hoje em Dia, não cometeram o mesmo erro. Neste, a opção do jornal foi por colocar o texto no futuro do pretérito: “ela teria sido sequestrada”. Naquele outro, o texto ressaltou a fonte em todos os momentos: “Segundo a mãe, a adolescente contou que foi assaltada e forçada a entrar no carro”. O jornal O Tempo também tomou a mãe da menina como fonte, mas apenas como alegoria para a “verdade” que já tinha sido assumida. 

Pode parecer uma besteira tudo isso, se não acontecesse quase que diariamente em nossa imprensa.

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A independência do jornalismo depende, sobretudo, da qualidade técnica e do rigor ético. Duas características que nem sempre são lembradas na redação de O Tempo. O jornal teria evitado um erro ético grotesco se, após cada afirmação feita durante a cobertura, tivesse usado uma vírgula seguida por três palavrinhas: “disse a menina”. Apenas isso. #Comunicação #Opinião #Comportamento