Ontem, 12 de fevereiro, o Jornal Nacional veiculou a notícia de uma garota de 9 anos à qual foi garantido o direito de mudança de nome e "sexo" no registro por um juiz no Mato Grosso. A decisão é inédita no país, uma vez que a adequação dos documentos se estende ao gênero da criança - normalmente, quando transexuais conseguem o direito de alteração do registro, é garantida somente a readequação do nome.

No site do jornal O Estado de S. Paulo, há uma outra notícia sobre uma garota trans, Isabela, de 5 anos, que ganhou o direito de ser tratada como alguém do gênero feminino na escola, em Salvador.

É importante lembrar que o termo "transexualismo", usado no Jornal Nacional, está há muito obsoleto e não é mais adotado nem mesmo no DSM, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que substituiu, em 1994, o diagnóstico por "Transtorno de Identidade de Gênero".

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Em sua 5ª edição, em 2013, não se considerava mais a identidade de gênero um transtorno, revisando-se a expressão para "Disforia de Gênero", a fim de designar a angústia sofrida por quem não se identifica com o seu "sexo" masculino ou feminino.

Por um lado, essas garantias são um avanço na maneira como as instituições tratam pessoas transgênero, independentemente da idade. Quando crianças que não se identificam com seu chamado "sexo biológico" conquistam o direito de expressar suas identidades, há mais chances de elas não desenvolverem problemas como a depressão, quadro recorrente entre pessoas trans.

Por outro lado, a reação de algumas pessoas às notícias em questão demonstram como ainda existe muita desinformação a respeito da transgeneridade e como a própria noção de identidade de gênero é interpretada erroneamente por grande parte da população.

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Quando as mães relatam que suas filhas agiam, desde muito novas, como meninas, alguém pode levantar a ideia de que, segundo a "ideologia de gênero", não existe coisas que sejam "de menino" ou "de menina", questionando o motivo, então, de aquele #Comportamento ser considerado como o de alguém transgênero.

O que acontece é que roupas "de menino" ou "de menina", assim como brincadeiras e comportamentos, são aqueles que, historicamente, vêm sendo associados aos gêneros masculino e feminino. São códigos que adotamos para expressar como nos sentimos internamente. Assim, se uma criança se sente como menino, ou seja, tem a identidade de gênero masculina, ela vai adotar roupas, brinquedos e atitudes "de menino" para que as pessoas ao seu redor entendam como ela se sente. É por isso que dizemos que o gênero é social - ele é uma expressão da identidade, por meio da adoção de códigos que a sociedade reconhece.

Uma das primeiras formas de socialização à qual crianças são expostas é justamente a do gênero.

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Portanto, elas são capazes de identifica-lo muito cedo em si mesmas, rotulando-se como garotos ou garotas já aos 3 anos de idade.

Segundo estudo liderado por Kristina Olson, professora de psicologia da Universidade de Washington, crianças transgênero se identificam como tal ao mesmo tempo que crianças cisgênero (ou seja, que não são transgênero). Em outras palavras, alguém que "nasceu menina" mas apresenta "identidade masculina" perceberá isso na mesma idade que alguém que "nasceu menina" e apresenta "identidade feminina".

Esse mesmo estudo concluiu que essa identidade apresentada pelas crianças que fizeram parte da pesquisa, as quais estavam entre os 5 e 12 anos de idade, é consistente - não muda e não se revela como uma confusão ou fase.

Um exemplo do quão contundente é o dilema da identidade de gênero na infância está no caso de Danann Tyler (foto), hoje com 13 anos de idade. Quando tinha apenas 4, sua mãe conta que a garota tentou cortar o próprio pênis com uma tesoura, dizendo que ia "se livrar" daquilo para "consertar o problema". #Justiça