Em 2002, para que a eleição pudesse ocorrer sem perturbações à ordem democrática, o então candidato Luis Inácio Lula da Silva teve que lançar a "Carta ao povo brasileiro", prometendo cumprir contratos com especuladores e toda sorte de capital privado. Nem mercados nem eleitores imaginavam que a conversão petista seria tão radical - não fosse o escândalo do chamado "Mensalão petista" e era possível que seu #Governo se resumisse a um neoliberalismo com Bolsa-Família. Em vinte anos de redemocratização, esse foi o terceiro golpe à democracia, junto com a posse de Sarney e a eleição do Collor.

Em 2015, na Argentina, nada disso foi exigido do então candidato Maurício Macri - afinal, para os donos do poder e da imprensa mundial, quem tradicionalmente atenta contra a democracia é a esquerda, por mais que a história mostre o contrário.

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Macri venceu com a propaganda de fazer um governo para todos e moderno. Montou um governo tecnocrático, formado por CEOs da iniciativa privada, tal qual Piñera em sua desastrosa presidência no Chile (2010-2014).

Por ora, diferentemente do que fez Lula diante da "herança maldita" de FHC, Macri implementou mudanças bruscas no rumo da economia, resultado em estouro da inflação e demissões em massa, feitas não apenas como fruto das medidas nas empresas, mas diretamente pelo governo - os servidores públicos "nhoques" macristas ganharam um estatuto próximo aos "marajás" de Collor. Que tais mudanças sejam conseqüentes com o que havia sido prometido na campanha, deixemos de lado essa discussão - ainda que, pelo que tenho acompanhado, suas propostas não falavam tão explicitamente em ressuscitar o neoliberalismo velhaco dos anos 90.

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O que assusta é a forma como o presidente argentino desrespeita solenemente a constituição, a democracia, o legislativo e a justiça do país, e como a imprensa internacional, "curiosamente", aceita tudo sem questionar, sem nunca acusá-lo de golpista ou ditador.

Com pressa em desmantelar o aparelho estatal montado durante os governos Kirchner, Macri tem passado por cima do legislativo e governado via DNU, Decreto de Necesidad y Urgencia (o equivalente a nossa Medida Provisória). Foi via DNU que Macri desfez a Ley de Medios, aprovada em 2009, durante o mandato de Cristina Kirchner. A referida lei foi fruto de longo processo de pressão de órgãos de defesa dos direitos humanos e de liberdade expressão, com ampla discussão no país, aprovado pelo legislativo, e segue o caminho trilhado pela legislação dos Estados Unidos e dos países centrais da Europa, em que é vedado o monopólio ou o oligopólio da comunicação de massa.

Democracia - seja no rito, seja na lei - é algo que nada vale para a imprensa internacional: o El País não cora diante da má-fé de sua manchete, ao dizer que a lei era "controle kirchnerista da mídia Argentina".

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E nenhum alarde fez quando o judiciário anulou a decisão do executivo - uma lei aprovada pelo legislativo não pode ser desfeita via DNU -, e Macri mandou que os prédios das agências de regulação AFSCA e AFTIC fossem isolados pela polícia.

A título de comparação: quando o governo Lula mudou os presidentes de agências reguladoras no Brasil, por não estarem afinados com suas propostas de governo, foi acusado pela mesma imprensa que hoje louva Macri de desrespeitar contratos - imagine se ele as suprimisse, teria se tornado a fina flor do golpismo bolivariano. O fato de tal medida beneficiar diretamente o grupo Clarín, que foi seu grande comitê de campanha, isso nada tem de escandaloso. #Crise #Mercosul