Mais preocupante que os ataques à Ley de Medios foi a decisão tomada esta semana pelo #Governo Macri, de apagar 90% das notícias da página "Infojus", ligada ao Ministério da Justiça e Direitos Humanos. Acusar o portal de kirchnerismo é argumento demais débil - a não ser que se queira dizer que as torturas e assassinatos durante a ditadura militar argentina também são invenções kirchneristas, talvez a própria ditadura.

A política de recusa da memória e da verdade factual é preocupante: o esquecimento e a manipulação do passado é o primeiro passo para deformar o presente. Um povo sem memória não é capaz de notar falácias em encadeamentos causais - visto que não é capaz de apreender criticamente os acontecimentos apresentados como causas.

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Parênteses: aos de pensamento binário: não estou aqui advogando que para uma dada situação haja uma causa verdadeira - a história e o presente estão permanente abertos a interpretações e disputas de visões políticas -, a questão é que, ao negar parte das informações, impede-se que haja autonomia dos cidadãos em interpretarem o contexto que vivenciam: são poucos os caminhos que podem ser trilhados, e todos ficam a meio do caminho - um prato cheio para ódios de classe aflorarem e desembocarem em extremismos políticos.

Mas não é só da ditadura que o Infojus era referência. Além de violência institucional o portal trazia notícias sobre violência de gênero, feminicídio, crimes de lesa humanidade, delito econômico, lavagem de dinheiro, narcotráfico e outros. Sumiram da página as informações sobre crimes praticado pela Shell, ou a que informava que o Grupo Clarín era quem detinha mais dinheiro nas contas do HSBC Suíço, ou sobre o incêndio criminoso (segundo a justiça argentina) no depósito da Iron Montain, que estava sob investigação por lavagem de dinheiro e era ligada ao grupo Clarín e ao então prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri.

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O que presenciamos na Argentina é uma versão mais explícita do que acontece no Brasil: informações cruciais à nação e ao seu povo são negadas, em nome de interesses particulares. quando a Comissão da Verdade começou seus trabalhos foi noticiado que muitos quartéis estavam queimando papéis - e não era devido ao intenso frio tropical. Sobre o caso HSBC, os papéis ficaram a cargo de jornalistas ligados às grandes empresas de #Mídia, como a Folha de São Paulo, e pouco, quase nada, se soube sobre quem eram os sonegadores que aproveitavam da lavanderia suíça.

Há muitos que se pergunta se um eventual governo Aécio seria parecido ao de Macri. Acho pouco provável: apesar de avanços nos direitos sociais visíveis nos anos petistas, o país pouco avançou na democratização da informação (andou para trás com o governo Dilma, na verdade), e deu passos tímidos no restabelecimento da verdade histórica. No quesito direitos humanos, com anuência do PT, aplausos do PSDB e engajamento direto do PMDB (para ficarmos nos três maiores partidos do país), Garotinhos, Felicianos, Cunhas e Bolsonaros da vida ainda têm força para barrar avanços, quando não para impôr retrocessos.

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O tamanho do retrocesso que Macri representa serve antes para ver o quanto o Brasil ainda tem por avançar para conseguir se estabelecer como democracia de direito e de fato.