Claudio Botelho é conhecido por suas peças teatrais bem escritas, dirigidas e incrivelmente bem atuadas. Sua ousadia artística fez com que seu palco fosse valorizado e conhecido. Sua ousadia pessoal deixou muita gente de cabelo em pé, com comentários afiados em relação à política, religião e sexualidade. Muitos escandalizados, muitos que concordam com suas verdades, mas não teriam coragem de colocar em palavras tanta opinião intensa e que vai contra a maioria dos pensantes.

No sábado passado, o artista no palco, deixou que o cidadão indignado com a política atual do país, escapasse e fizesse comentários que iria contra o que a maioria das pessoas que estavam na plateia acreditava.

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Seu discurso político, infeliz para alguns, porém, não justifica que suas palavras artísticas sejam caladas.

Grande parte de suas obras foram censuradas por Chico Buarque, já que levavam música de sua autoria. O artista tinha opinião política contrária. Normal, afinal, as obras são suas e ele não queria que um opressor continuasse cantando suas músicas para um público que o vaiava por pensar diferente.

Normal.

Depende do seu conceito de normal.

Se esperavam aplausos a um musical onde artistas indiscutivelmente talentosos nos entregavam sublimemente sua #Arte e, de repente, quando alguém, que está em um palco e com todos os holofotes virados, usa de humor negro para criticar um assunto tenso: a plateia não aplaude, vaia.

Democraticamente, todos tinham direito. Ele tinha o direito de expressar sua opinião, a plateia tinha o seu de não concordar.

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O cenário, porém, estava totalmente errado.

Claudio Botelho poderia dar sua opinião política, por mais agressiva que fosse, em qualquer lugar, menos naquele palco, onde ele tinha sido pago para cantar, atuar e fazer mágica através do talento de toda a equipe. Ele jamais poderia ter trazido à tona um assunto delicado como aquele, sem que houvesse um debate agressivo, já que ele era o único que realmente tinha voz ali, no palco, com o microfone na mão, por minoria que fosse.

O público, calado, sem holofotes e sem esperar que suas ideias fossem rebatidas em um espetáculo onde o tema era sequer política, foi agressivo, também no seu direito de ir em contra a uma ideia que não lhe cabe.

O episódio lastimável onde um artista é julgado publicamente por ter uma opinião contrária, nos dá uma ideia sobre quão imaturos somos em relação a aceitar outras visões. Um artista, que, acima de tudo, é um cidadão, foi julgado cruelmente por centenas de pessoas que acreditaram que ele estava indiscutivelmente equivocado, quando o seu único erro foi ter trazido um assunto delicado a um público que não estava preparado para tal discurso.

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E o seu erro seria facilmente perdoado, se ele tivesse tido um pouco mais de sensatez em reconhecer a própria falha e não rebater aquelas opiniões naquele cenário despreparado para um debate político. Assim como também deveria haver compreensão da outra parte, que não aceitou uma opinião contrária de apenas um artista que, de forma errônea, expressou uma revolta coletiva.  

Ali, todos cometeram erros.

Não seria justo, em um país que clama ser democrático, usar de um julgamento frio e de poucos argumentos para condenar apenas uma das partes, a levando a ser vista com péssimos olhares, até mesmo dos que não entendem o que realmente aconteceu e seguem o fluxo das opiniões mais aplaudidas.

Um artista da estirpe de #Chico Buarque ter misturado a sua crença pessoal política com uma forma fria de opressão, vetando um artista de fazer sua arte, o torna pequeno como os comentários de Claudio que ele disse abominar.

Uma carreira não deveria ser destruída por um momento de impulso, uma palavra solta, um comentário impensado. A arte precisa de espaço. O mundo precisa de amor, tolerância, sensatez e definitivamente de ARTE!

À política, imploramos: por favor, não cale nossos artistas! #Teatro