Recentemente, aconteceu mais um desses casos já recorrentes de abuso de autoridade em portas giratórias de bancos. A Blasting News publicou uma matéria sobre o constrangimento de uma mãe com um bebê de colo que, barrada, não teve ninguém para ajudá-la a segurar a criança para que ela procurasse na bolsa o objeto que estaria causando o travamento da porta. Essa mãe teve que colocar seu bebê de dois meses no chão para descobrir que o "vilão" era um termômetro. O mais chocante no relato da mãe, que saiu da situação chorando, foi o fato de, além de não ter tido ajuda de ninguém, ter constatado que os guardas se divertiam com seu sofrimento.

Esse caso é um entre tantos outros que acabaram motivando as vítimas a entrar com ações por danos morais contra os bancos.

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Há o caso de uma mulher que foi tirando todas as peças de roupa até ficar nua, o de uma professora que precisou tirar o sutiã, e outros similares. Todos levam à mesma constatação: o ser humano não sabe lidar com o poder. Seria mesmo impossível acionar alguém para segurar o bebê dessa mãe? É admissível permitir que uma senhora fique nua para provar que não está armada? O metal de um sutiã representaria de fato um risco? Essas situações explicitam pura má-fé.

Zygmunt Bauman, em Sobre Educação e Juventude, cita um fenômeno detectado por Gregory Bateson, antropólogo britânico já falecido, que esclarece muito sobre o modo de ser do ser humano. Bateson observou que imigrantes sofridos e humilhados que superam a situação tendem a "esquecer" seu passado dolorido e reproduzir com novos imigrantes o #Comportamento hostil a que foram submetidos anteriormente.

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O antropólogo chama isso de "cadeias cismogenéticas".

Na obra O Caderno, que reúne textos que Saramago postou em seu blog entre 2008 e 2009, há um texto de 17 de julho de 2009 em que ele conta que a maior parte dos portugueses que sofreram muito ao ir para a França, ao superar as violências, privações e humilhações, envergonham-se de seu passado e comportam-se como se sua vida tivesse começado depois da superação. Diz Saramago: "Esses são os que estarão sempre prontos a tratar com idêntica crueldade e idêntico desprezo" os novos imigrantes. E segue: "Aquele que antes havia sido explorado e perdeu a memória de o ter sido, explorará. Aquele que foi desprezado e finge tê-lo esquecido, refinará o seu próprio desprezar. Aquele a quem ontem rebaixaram, rebaixará hoje com mais rancor." Bauman diz não conhecer "um caso de vitimização que tenha enobrecido suas vítimas em vez de despi-las de sua humanidade".

Esse "modo de ser" não se restringe a imigrantes. A maior parte dos seres humanos reproduz contra seus subalternos o sofrimento a que são submetidos por seus superiores.

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O chefe humilha o sub-chefe, o sub-chefe humilha a secretária, esta o office-boy, e este a quem tiver chance de humilhar. Entre os imigrantes há uns poucos que honram seu passado, tendo em seu próprio sofrimento uma motivação para ser solidário com novos imigrantes. Será que, através da reflexão, os que têm poder sobre alguém não poderiam começar a romper essa cadeia, iniciando uma cadeia virtuosa de compaixão e respeito ao próximo?

Saramago termina suas anotações de 17 de julho com uma frase que diz muito sobre seguranças que riem de pessoas humilhadas e sobre todos os que, no fundo, se divertem exercendo maldosamente seu poder sobre outros: "Em verdade, em verdade vos digo, há certas maneiras de ser feliz que são simplesmente odiosas." #Opinião