Circula pela internet um abaixo-assinado das alunas do ensino fundamental e médio do Colégio Anchieta, de Porto Alegre. Com o mote "Vai ter shortinho sim", as garotas reivindicam o direito de se vestirem como bem quiserem, alegando que as regras que lhes são impostas são necessárias porque a sociedade não educa os homens para respeitar as mulheres, seja lá como estiverem vestidas. Elas exigem que a instituição "deixe no passado o machismo e a objetificação e sexualização dos seus corpos", pois "quem sexualiza meninas de 13 a 17 anos é que tem problema". Afirmam que, se os meninos se distraem com coxas de fora, isso é problema deles e que professores não têm direito de espichar os olhos para suas pernas.

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O movimento tem uma página no Face, onde ocorrem trocas de desaforos entre elas e garotos que elas consideram machistas. Nela há um vídeo em que uma adolescente desqualifica as reflexões sobre o exagero da reivindicação e tenta ridicularizar quem lhes sugere usar bermudas, porque elas são "feias".

O abaixo-assinado já conta com mais de 24 mil apoiadores, já faz escola - há mais 18 abaixo-assinados com o mesmo teor - e causa controvérsias. Uma matéria da revista Carta Capital analisa filosoficamente a reivindicação das meninas e enfatiza o aspecto simbólico do vestuário. Considera importante levantar a questão da vinculação da roupa com a disponibilidade sexual de quem a usa. E não coloca sequer UM senão na radicalização.

Fica evidente a capacidade de mobilização das meninas e seu conhecimento das causas feministas.

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E é justo o combate aos horrores produzidos pelo machismo. Ninguém pode defender homens que tratam mulheres como objetos e que interpretam uma saia curta como autorização para um estupro. Mas há perguntas que não querem calar.

Não há roupas apropriadas para cada tipo de ambiente? Bermudas leves não são mesmo mais confortáveis do que shortinhos? Meninos não vão à escola de bermuda? Meninas nessa faixa etária não têm vida sexual desde que o mundo é mundo? A roupa ou falta de roupa não é, historicamente, instrumento de sedução? Um dos atributos da roupa não é também nos conferir elegância? Não é até saudável e gostoso meninos perderem um pouco a concentração na frente de um corpo feminino?

Para elas, o fato de que "são livres" se sobrepõe a qualquer sentimento masculino. Homens não podem se empolgar com corpos de mulheres. Educando-se eles podem neutralizar totalmente seus hormônios e até suas reações involuntárias, como aquelas que levam os olhos do pobre professor a insistir em se voltar para o que está se mostrando livremente.

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Será que as meninas não arrebentaram a frágil linha que separa homens saudáveis de doentes? Não estão colocando todos em um mesmo balaio, e exigindo-lhes um grau de civilidade que pode fazer deles seres assexuados e sem graça? Será que, ao combater tão radicalmente a repressão, elas não estão se transformando em repressoras? Elas sabem mesmo o que estão desejando? Será que gostarão se puderem aparecer até nuas na frente dos homens sem conseguir mais captar sua atenção?

O feminismo começou seriamente e com reivindicações absolutamente necessárias. Ainda há muito a fazer. A radicalização é sintoma de falta de reflexão e pode nos levar ao descrédito. É bom pensar nisso. #Educação #Opinião #Comportamento