- "À memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, pavor de #Dilma Rousseff".

O único lado positivo da fala do deputado Jair Bolsonaro foi ter mostrado à nação o monstro que se atreve a se achar digno de presidir o país, e os igualmente monstros que os seguem na rede, expostos e rechaçados. Fora estes, a reação de todos foi unânime: incredulidade. Como pode alguém defender uma atrocidade, a brutalidade e a covardia que nela existem? Perguntaram-se muitos. E o pior, como pode isso ocorrer dentro de uma casa em que a liberdade do povo deve ser soberana?

Até os mais descrentes com a política se espantaram. Até os mais acalorados ativistas da direita apressaram-se em defender que não comungam com isso.

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O apoio veio, é mais claro que a luz do dia, das velhas patrulhas anti-comunistas/socialistas/terroristas, que como diz a cantora Marina Lima, "Morreram faz tempo e ainda não sabem". O apoio veio dos monstros que sonham em limpar o país da corrupção com balas, fuzis e metralhadoras numa mão e a fatídica bíblia (de 73 ou 66 livros, não importa) em outra, gerando um governo absolutamente perfeito em que estes serão mimados, bajulados e bem tratados, não morram nem sejam roubados, humilhados, violados, mas possam ter sacramentado o poder de estourar o crânio daqueles que pensam diferente.

O problema não é o que Bolsonaro diz e faz, tão somente. O que deve preocupar todo aquele com um mínimo de bom senso é como pensam, falam e agem os que ele representa, pois, no fim das contas, se não fosse o deputado em questão seria qualquer outro, em algum momento, a cingir-se com a bandeira da brutalidade amarrada à da estupidez, ambas confeccionadas pelos monstros que a democracia não sepultou.

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Aliás, só existem hoje por serem fruto dos anos de boicote ao ensino de ciências humanas, desde a batuta de Gustavo Capanema, enquanto ministro da educação da face ditadora de Getúlio Vargas, à acentuação deste no Regime Militar. Mas isso requer outro texto.

Não é necessário quebrar maxilares nem introduzir roedores e insetos em suas partes íntimas para ser monstruoso com as mulheres. Basta criticar as vítimas de todo e qualquer assédio, imputando-lhes  culpa somente para atestar idiotice. Não precisa assassinar quarenta e sete pessoas da forma mais baixa e covarde possível para ser um monstro. Somente soterrar com um sepulcral silêncio a morte de inocentes que ainda tombam pela mão do estado, como os mortos de Eldorado do Carajás, cujos vinte anos da tragédia foram recordados apenas por um mísero deputado em meio a quinhentos e onze; a prescrição do crime para os que ainda por ele não pagaram e não mais pagarão, não ser lamentada por quase ninguém. Como desejar às famílias e companheiros deles um "Feliz 17 de abril"?

A esperança mora na educação dada aos pirralhos, no sentido mais tenro do termo.

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Por mais combalida que seja e esteja, ainda consegue pela brava ação de inúmeros professores semear o espírito crítico necessário a qualquer sociedade. É utópico demais, admita-se. Mas não se pode matar a esperança. Não se pode esquecer a falência da educação que ninguém resolveu e dona Dilma acentuou. É inevitável e justíssima a raiva de quem viu a morte de perto e/ou/pois teve o direito de ser atendido trocado pelo do de alguém que apoia o partido-chefe da região nos postos e saúde e hospitais públicos, coisa que dona Dilma não resolveu. Ainda assim, dona Dilma veio a ser presidente através da democracia pela qual foi torturada. Simboliza, por mais que erre abundantemente em seu governo, a vitória do direito de todos sobre quem os retesa.

Talvez  com as repetições que a história dá, daqui a cinquenta anos outro presidente corra o risco de ser impedido. E, se esse impeachment for comprovadamente justo, como o de Collor, algum deputado ou deputada fruto dessa nova geração, consciente e madura, profira:

- À memória de Dilma Vanna Rousseff, pelo que representa, de todos aqueles que lutam contra o sistema que me permite estar aqui., eu digo sim, senhor presidente. #Opinião #Congresso Nacional