“O que chamo de fascista é um tipo psicopolítico bastante comum. Sua característica é ser politicamente pobre. O empobrecimento do qual ele é portador se deu pela perda da dimensão do diálogo”.

Assim inicia a filósofa Marcia Tiburi seu ensaio de 194 páginas publicado pela editora Record em 2015. Em ‘Como Conversar com um Fascista — Reflexões Sobre o Cotidiano Autoritário Brasileiro’, a autora propõe ao leitor uma reflexão profunda sobre o que ela chama de “estado psicopolítico e cultural de nossa época”.

Com linguagem simples, o que mostra ser uma obra para não ficar parada no ambiente acadêmico, Marcia discorre sobre o cotidiano atual com profundidade.

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Como disse Eliane Brum em artigo para o El País, trata-se de “um livro de coragem, já que é tão difícil quanto arriscado escrever sobre o que está em movimento”.

A autora propõe um experimento: para além de nos sentirmos vítimas do fascismo crescente no Brasil — ou de nos transformarmos em fascistas também—, podemos nos transformar em “guerrilheiros sutis”, contra-atacando com o diálogo. “O diálogo é o contrário do discurso e só ele pode desarmá-lo. Somente ele pode desmontar o dispositivo sem tornar-se um novo dispositivo”.

Analfabetismo político

Marcia Tiburi está segura de que o crescimento do autoritarismo no Brasil (com exemplos claros como o do deputado que faz apologia à tortura em plena Câmara, as chamadas bancadas da bala e da Bíblia, entre outros), é resultado de um significativo analfabetismo político.

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"O que leva um indivíduo a reunir-se em um coletivo sem pensar com cuidado crítico nas causas e consequências dos seus atos configura aquilo que chamamos de analfabetismo político", defende.

Para ela, a falta de conhecimento e a má educação torna as pessoas mais vulneráveis a “salvadores da pátria” que, munidos de um discurso justiceiro pregam a violência, o preconceito contra minorias, promovem a antipolítica. "Política é a capacidade humana de criar laços comuns em nome da boa convivência entre todos, o que requer defesa dos direitos para todos e respeito para cada um. Antipolítica, por sua vez, é a destruição destas potencialidades".

A era do “consumismo da linguagem”

Nesta obra, Tiburi também crava o termo “consumismo da linguagem” — a suplantação do elemento político da linguagem pelo incremento do seu potencial demagógico. Ou seja, o excesso de informação e seu consumo descartável, sem muita importância para o pensamento crítico, nos tornou consumidores de linguagem como de qualquer outro produto industrializado.

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Para ela, a ma fé de certos meios de comunicação aliada ao amplo espaço de opiniões obtido com as redes sociais da internet está rebaixando os discursos. E isso contribui para o aumento do fascismo. “Quem sabe manipular o círculo vicioso e tortuoso da linguagem ganham em termos de poder”.

A autora aponta recursos como a distorção como uma lógica própria ao consumismo da linguagem. Com o pretexto da liberdade de expressão, este consumismo produz vítimas e também produz os aproveitadores das vítimas (fascistas), que lançam mão de falácias e falsos argumentos para distorcer a condição das vítimas — atacar a comunidade GLBT dizendo-se vítima de “héterofobia” ou de “cristofobia”, por exemplo.

Em suma, é um livro para quem quer entender o avanço do autoritarismo no Brasil e busca antídotos contra a barbárie. Ao final da leitura, além de rememorar ou aprender os conceitos de autoritarismo, fascismo, democracia, entre outros, e refletir sobre “o que estamos fazendo uns com os outros”, sai-se com a sensação de que o silêncio não pode imperar. #Livros #Literatura #Comportamento