Depois do dantesco espetáculo da votação da admissibilidade do #Impeachment, no domingo, a segunda-feira foi de ressaca brava para qualquer cidadão minimamente politizado. Mesmo quem vinha acompanhando as sessões da Comissão do Impeachment não estava suficientemente preparado para assistir aos golpistas agindo ao vivo, descaradamente. Filme de terror. O final do domingo veio junto com uma imensa consternação. E a segunda-feira começou e terminou com essas fantasmagorias rondando nosso pensamento, que teima em compreender o incompreensível.

O domingo nos mostrou algo demasiado assustador: a racionalidade pode ser espicaçada pela irracionalidade.

Publicidade
Publicidade

Esperávamos, sim, muita má-fé. Esperávamos falta de educação, agressividade, argumentos frágeis... mas tudo isso com mínima seriedade, dentro dos limites impostos pela própria gravidade do caso. Em resposta a uma pergunta objetiva, sobre a existência do crime de responsabilidade. Com respeito. E, pelo menos, levando - ou fingindo levar - em consideração as regras do jogo. Mas eles não se preocuparam em fingir, e isso é apavorante.  

 O que vimos foi um espetáculo dantesco de gente que ignorou completamente o pensamento racional e expôs seu ódio visceral, usando-o como justificativa para eliminar o "inimigo". As coisas saíram do campo do previsível, do aceitável, do razoável. Os argumentos não eram argumentos, eram sentimentos. E como se pode refutar, com argumentos lógicos, sentimentos tão viscerais? Difícil.

Publicidade

Você não pede docemente a um cão raivoso que pense um pouquinho antes de te abocanhar a canela. Não funciona.

Os deputados desconsideraram a questão central e votaram "sim" por odiar as políticas progressistas, por considerar imoralidade a educação sexual nas escolas, por interpretar o respeito à diversidade como "putaria"... Houve até uma mulher, negra, ressentida, que demonstrou ter raiva de Dilma, e disse não precisar das "esmolas do #Governo". Houve de tudo e não vale a pena falar desse tudo, porque já se falou muito e há coisas pesadas demais que não merecemos ficar lembrando, senão para combatê-las.

Talvez possa nos servir de consolo o fato de que estes que tramaram contra Dilma também são altamente rejeitados pela população. Os pró-impeachment odeiam Dilma, mas também odeiam Temer e Cunha. São bons em odiar. Só festejaram efusivamente o resultado de domingo porque, provavelmente, não conseguem pensar em duas coisas ao mesmo tempo. As coisas estão terríveis para Dilma, mas não serão fáceis para ninguém.

Publicidade

É compreensível o fato de haver quem não aceite derrotas. É compreensível que existam seres desprovidos de caráter e de qualquer noção de ética. Há pessoas boas e más e elas se unem de acordo com seus objetivos. Há quem seja vingativo. Há quem só pense em si mesmo, ainda que seu próprio bem custe o mal de muitos. Sabemos que há psicopatas e que eles conseguem se manter absolutamente frios em meio a um inferno. Tudo isso é da vida. Mas é absolutamente incompreensível que tais pessoas consigam tal grau de poder que lhes permita golpear a democracia às claras, em rede nacional. É estarrecedor que se tenha chegado a esse ponto. Como o Supremo Tribunal Federal pôde, com sua inércia, nos impor isso? O STF tem me reportado diariamente a uma conhecida frase de Einstein: "O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer".  

Nenhum cidadão brasileiro merecia isso. #Dilma Rousseff