Neste domingo, 24, o ator José de Abreu, envolvido recentemente em uma briga com um casal em São Paulo, participou do programa Domingão do Faustão, da TV Globo. Como era de se esperar, as redes sociais reagiram à entrevista, demonstrando o interesse das pessoas nas declarações do ator.

A história, amplamente conhecida, é uma entre as tantas polêmicas deste efervescente momento de crise política que vivemos. E ela tem seu lado positivo: precisamos falar do fascismo crescente no Brasil. Sem nos aprofundarmos no conceito, podemos definir episódios como este, de gratuita hostilidade, nos quais cidadãos agridem outros cidadãos por conta de seus posicionamentos políticos, como sendo sintomas de fascismo.

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Para a filósofa Marcia Tiburi, autora de ‘Como Conversar com um Fascista’ (editora Record, 1015), o fascismo é resultado de um empobrecimento do pensamento, de uma degradação moral e educacional que cresce a olhos vistos no Brasil. “O que chamo de fascista é um tipo psicopolítico bastante comum. Sua característica é ser politicamente pobre. O empobrecimento do qual ele é portador se deu pela perda da dimensão do diálogo”.

A distorção como álibi para o opressor

Neste episódio há um dos elementos fascistoides mais flagrantes que, segundo Tiburi, está cada vez mais visível no Brasil atual: a banalização da condição de vítima, especialmente por meio da distorção discursiva. Em termos simples: o ator foi abordado pelo casal com insultos de “ladrão, filho da p*” etc. Como não resistiu à pressão e partiu também para a agressão, rapidamente concedeu álibi para seu agressor.

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Com a confusão gravada, o opressor, perante à opinião pública, imediatamente assume o lugar do oprimido. Ora, pois, “uma figura pública não pode se comportar desta maneira”, bradam os defensores dos “mais fracos”.

Ora, pois, digamos nós! O casal provocador, neste caso, é o opressor original. Repete uma prática que já virou rotina: aborda-se uma personalidade pública, um político, um artista (vide o caso Chico Buarque, entre outros) de forma agressiva para expor seu descontentamento com seu posicionamento político. A liberdade de ir e vir, o sossego, são desrespeitados em nome de um “fazer justiça”, “colocar petistas em seus devidos lugares”. Depois o conteúdo vai para as redes sociais (afinal há smartphones de plantão o tempo todo) e os agressores passam a ser aplaudidos por milhares de internautas. Uma espécie de contágio emocional, uma catarse coletiva que vilipendia os direitos da vítima.

Seria desonesto de nossa parte, logicamente, defender que a reação do ator, por mais humana que possa ter sido, seja digna de compactuação.

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Especialmente se olharmos para o aspecto da agressão à mulher. Contudo, também seria intelectualmente desonesto não reparar que, a partir da fraqueza da vítima original, o opressor assume rapidamente a condição de vitimado.

Marcia Tiburi, em seu excelente ensaio sobre o autoritarismo no Brasil, aponta a prática da distorção como sendo cada vez mais comum e mais descarada no Brasil. Os fundamentalistas oprimem com discursos e movimentos políticos a comunidade LGBT. Quando uma transexual faz uma performance artística em que se ‘veste’ de Jesus para simbolizar o que ela acredita ser a via-crucis das pessoas transexuais, sorrateiramente os opressores se fazem de vítima e dizem que estão sofrendo "cristofobia". Apenas para citar um exemplo conhecido de todos.

De qualquer forma, para além de escolhermos “quem tem razão”, neste triste momento em que todos perderam o fair play, estes episódios envolvendo pessoas públicas são importantes para levantar o diálogo sobre o fascismo no Brasil. Tanto quanto repugnamos um ‘cuspe na cara’, não podemos aceitar em silêncio que a prática de hostilizar as pessoas por conta de suas convicções políticas, religiosas, ou orientações sexuais etc., seja vista como algo normal. Fascismo é coisa séria e não pode ser distorcida. Como uma enfermidade contagiosa, precisa ser tratada antes que vire epidemia. #Famosos #Comportamento #Casos de polícia