Depois da cuspida que Jean Wyllys deu no abominável Bolsonaro no domingo que já entrou para a história como o dia em que um golpe foi televisionado ao vivo, muita gente se manifestou nas redes sociais. Foi estarrecedor perceber que muitas pessoas ignoravam o que Bolsonaro fizera e o que representa e comentavam, absurdadas, a falta de educação de Jean Wyllys.

No dia da votação, enquanto Jean Wyllys defendia seu voto, Bolsonaro o interrompeu várias vezes expressando sua homofobia em público e balançando um cartaz com os dizeres "queimar rosca todo o dia". Jean Wyllys votou, foi até Bolsonaro, cuspiu e, saindo, disse para Chico Alencar, companheiro de partido: "eu cuspi no Bolsonaro".

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Mais tarde expressou nas redes sociais que não teria vergonha do que fez. Vale lembrar que Bolsonaro, ao votar, em inacreditável apologia ao crime, dedicou seu voto ao Coronel Ustra, reconhecido como o maior torturador da ditadura no Brasil e que, inclusive, torturou Dilma. Depois da votação, o filho de Bolsonaro, Eduardo, fazendo bom uso do caráter que herdou, postou um vídeo na internet, cuja edição fazia parecer que Jean Wyllys planejara o cuspe. Posando de bom menino, criticava o que Jean Wyllys fizera, dizendo que "jamais faria isso". Como a internet não perdoa, logo em seguida a assessoria de comunicação de Jean Wyllys postou, em sua página no Facebook, um vídeo que explica a má-fé do vídeo de Eduardo. Nesse vídeo se vê claramente que ele cospe em Jean Wyllys em resposta à cuspida que o pai levara.

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Mas tenta, com seu discurso, negar isso.

Qual a diferença entre a cuspida de Eduardo e a cuspida de Jean Wyllys?

Guardadas as devidas proporções, é similar à diferença entre sonegar impostos por safadeza, e se negar a pagar os impostos, declarando isso publicamente,  em protesto contra o mau uso destes, por exemplo. O primeiro caso constitui crime, coisa que se esconde, em prejuízo da moral. O segundo caso constitui "desobediência civil", conceito formulado por Henry David Thoureau, autor estadunidense do século XIX, que defende ser legítima, como forma de protesto, sem prejuízo moral, a desobediência a alguma lei ou #Governo injustos. O desobediente civil se sente orgulhoso do seu ato, enquanto o criminoso tem vergonha dele. É definição de desobediência civil:

"Método que permite defender todo o direito que se encontra ameaçado ou violado, uma forma de pressão legítima, de protesto, de rebeldia contra as leis, atos ou decisões que ponham em risco os direitos civis, políticos ou sociais do indivíduo."

O sonegador é criminoso.

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O desobediente civil é politicamente consciente e contribui para o aperfeiçoamento da democracia. A ressalva quanto a essa analogia é que, na desobediência civil, o protesto é pacífico e Jean Wyllys não foi pacífico. Oprimido por alguém que não respeita qualquer regra de civilidade, desobedeceu às leis da boa educação. Mas o fez orgulhoso do que fazia, porque seu ato teve o simbolismo da rejeição ao que existe de pior no mundo: a opressão, a ditadura, a tortura, a misoginia, a homofobia, o machismo, o preconceito. Ninguém defenderá o cuspe na cara como resposta possível a pequenas intrigas entre cidadãos civilizados. Mas quando a argumentação se inviabiliza por conta da falta de civilidade, e as leis não se fazem cumprir, a falta de educação, assim como a desobediência civil, se legitima. O cuspe de Eduardo Bolsonaro, assim como tudo o que faz e diz, é falta de educação, sim. O cuspe de Jean Wyllys é consciência política.

Assista ao vídeo 

  #Dilma Rousseff #Impeachment