Seguindo nosso exame sobre as ações viciosas dos homens, em particular as ações domésticas, cabe refletir sobre o caso Petrobras, este gigantesco esquema político-empresarial de corrupção, envolvendo a elite de ambas as classes. O que vamos discutir não são as ações criminosas propriamente ditas, mas uma ação em particular, que é a delação premiada, instrumento utilizado em alguns países de primeiro mundo, que muitos podem entender como sendo útil e necessário, outros como sendo nocivo e perigoso, portanto, vamos discorrer sobre essa prática, recente em nosso país e que se tornou o Sherlock Holmes da polícia e da justiça.

O ato da delação premiada é uma extorsão, uma chantagem que a justiça emprega tornando mais hediondo o criminoso em seu crime e mais odiosa a sua atuação no cumprimento do dever.

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Diferente do arrependimento, que se não torna o crime menos bárbaro, torna menos hediondo o criminoso. O que a traição barganhada entre criminosos e servidores da justiça expõe, além dos resultados fáceis, é o caráter movediço de ambos. Na delação premiada, o fundamento ético é a traição, e a institucionalização desse mecanismo entre os cidadãos é um erro grave que o Estado comete, primeiro, por não ser digno de confiança mesmo das ações virtuosas que pratica, segundo, pela incapacidade de proteger a vida dos traidores que fabrica e de suas famílias.

Esse instrumento de fabricar traidores é traiçoeiro em si mesmo e pode muito rapidamente contaminar a sociedade com resultados imprevisíveis, como alunos e pais insatisfeitos com o desempenho escolar passarem a delatar professores e escolas.

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Uma reprimenda de um professor pode gerar delação por agressão ou injúria. Nas empresas, funcionários podem se sentir motivados a delatarem colegas com fins premeditados, assim como podem ocorrer processos de infiltração em órgãos públicos e privados, em partidos políticos, nas polícias, na justiça e outros setores com o nítido propósito de futura delação. É fato que em países da Europa e EUA, também há a delação, todavia, o nível de consciência moral e ética de suas populações, as blindam de certo modo contra esse espúrio expediente.

A delação premiada é um monstro que serve a dois senhores: serve à justiça, que dela se utiliza para compensar a própria incompetência, e serve à política, como instrumento de vingança. Carlos Heitor Cony, que viveu os anos de chumbo de 1964, se não sentiu na pele, sentiu na alma seu efeito e nos relata: “De todas as violências e ilegalidades postas em prática pela quartelada do golpe de 64, a mais repugnante, a mais abjeta, foi a oficialização da delação”.

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Muitos por pensarem diferente, foram denunciados aos algozes da ditadura", por isso, mais uma vez, a delação premiada é um ato traidor que merece repúdio, onde o criminoso delator é sempre mais criminoso, merecendo maior repulsa da sociedade e o Estado ou instituição que fomenta e pratica a delação, da mesma forma, merece igual repulsa. Se lembrarmos de algumas passagens da História, veremos emergir independente de tempo ou lugar, de crenças ou ideologias, a repulsa de que falamos.

Foi desse expediente que se utilizou Hitler para prender e mandar aos campos de concentração, milhares de judeus. No romance cristão, Judas passou à história pelo simbolismo da delação a Jesus. Na Inconfidência Mineira, Silvério dos Reis mandou à forca Tiradentes, por força da delação. Foi pelo instrumento da delação que Igreja Católica mandou milhares de homens, mulheres e crianças arderem na fogueira. Na China, Mao Tsé-Tung, a pretexto de acabar com a corrupção nos serviços públicos, se utilizou da delação para oficializar o extermínio e Nicolae Ceausescu na Romênia, como bom admirador de Stalin, utilizou o partido comunista com intensa perversidade, sustentado na delação. Assim, as sociedades que se caracterizam por viverem à margem dos princípios éticos e morais e passam a se utilizar desse instrumento, tornam-se suspeitas em suas ações e tão traidoras quanto os delatores que criam. #Lula #Dilma Rousseff #Lava Jato