Você já visitou o site da "#Escola sem Partido"? É chocante. Na página inicial, a frase: "#Educação sem doutrinação". Uma rápida leitura da apresentação deixa claro que o que se diz "defesa da liberdade de pensamento e do pluralismo de ideias" na verdade é uma tentativa da direita de calar vozes dissonantes. 

A organização diz dedicar-se ao problema da instrumentalização do ensino para fins políticos e ideológicos, segundo ela, presente em praticamente todas as instituições de ensino do país. Afirma que, em uma sociedade livre, as escolas "deveriam refletir com neutralidade e equilíbrio os infinitos matizes da realidade", mas que, no Brasil, grupos de correntes políticas e ideológicas "com pretensões claramente hegemônicas" têm atuado como doutrinadores, transformando as escolas em caixas de ressonância de suas doutrinas.

Publicidade
Publicidade

Os títulos dos artigos do site são de arrepiar os cabelos: "De olho no livro didático", "Flagrando o doutrinador", "Planeje sua denúncia". Qualquer estudante que pretenda ser professor pensa em abortar a ideia na primeira visita a esse site. Ele nos reporta à censura da ditadura. E pretende criar jovens delatores.  

Outra pérola da página é um vídeo com uma paródia da música "A Banda", de Chico Buarque - que provavelmente não viu isso, ou teria desautorizado o uso de música sua para tal finalidade. Assina o argumento da paródia, cujo nome - "O Bando" - refere-se à esquerda, Danilo Gentili, o apresentador que, ao entrevistar Luciana Genro, do PSOL, durante as campanhas presidenciais, demonstrou enorme preconceito em relação ao socialismo e recebeu dela o conselho de estudar mais. A letra é de Filipe Trielli, cuja página do Facebook tem foto do Pixuleco, vídeo ironizando Dilma e confirmação de presença em manifestação pró-impeachment.

Publicidade

Conhecendo os autores, já prevemos o teor da paródia, mas é difícil imaginar algo tão ruim e ideológico em uma página que combate a doutrinação. A letra cita pensadores e simpatizantes da esquerda com absoluto desrespeito. Bakunin, Foucault, Marighella, Fidel... Marilena Chauí, Sakamoto, a "esquerdalha"... O ápice do sacrilégio talvez esteja nestes versos, doloridos até de transcrever: "A Marcha rubra se espalhou e a direita não viu/ O Paulo Freire virou santo e fudeu com o Brasil". Na seção "novidades" há o artigo "Impeachment - professores usam sala de aula para defender governo indefensável", evidentemente tendencioso.

Há dois anteprojetos de lei de autoria da "Escola sem Partido" que estão sendo discutidos na ALESP. O primeiro, 960/2014, trata de doutrinação ideológica e o segundo, 1301/2015, vai além: quer proibir discussões sobre diversidade de gêneros e de sexualidades no ambiente escolar. O Facebook tem uma página - "Professores contra o Escola sem Partido" - onde há informações atualizadas e petições contra a organização, cuja real intenção é censurar ideias diferentes das suas.

Publicidade

 

O professor é um adulto que merece respeito e que sabe que tem o compromisso ético de não praticar o proselitismo. Criar uma lei que criminaliza a emissão de opinião em sala de aula com base em comportamentos pontuais torna muito mais pesada a tarefa de todos os professores e, consequentemente, a de seus alunos. Se o pensamento de esquerda tem predominado entre educadores, isso reflete exatamente a realidade. A realidade é, sempre, o que está aí, não o que pensamos que "deveria" estar.  É muito importante que todos se envolvam no combate à censura em sala de aula. Não se omita.

#Legislação