No mesmo dia em que se publicou a notícia de que Alexandre Frota e representantes do grupo Revoltados On Line foram recebidos pelo ministro da Educação e puderam transmitir a eles suas sugestões para o sistema educacional brasileiro, espalhou-se uma outra notícia extremamente assustadora de que uma menor de idade havia sido estuprada por 30 homens e um vídeo mostrando-a desacordada, após o massacre, foi compartilhado nas redes sociais.

Se você se pergunta o que o recebimento de Frota pelo ministro e o caso do estupro coletivo tem a ver, preciso lhe informar que é exatamente este o problema. E, sim, você é parte dele, como todos nós o somos.

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Alexandre Frota, não faz muito tempo, contou que havia forçado uma mãe de santo a fazer sexo com ele. Em TV aberta, o ex-ator pornô, Rafinha Bastos, o entrevistador, bem como o público no auditório riam de uma clara confissão de estupro. Posteriormente, Frota procurou se explicar ao dizer que aquela era “apenas uma história” para promover sua apresentação de comédia stand-up. Portanto, de estuprador confesso, ele passou a comediante que tem como repertório contar anedotas envolvendo violência sexual para que as pessoas riam. E, pior, as pessoas riem.

Agora, enquanto o país se encontra em crise política, esse mesmo sujeito, que acha o sexo forçado e violento um motivo para fazer uma piada, posa como se fosse um cidadão consciente e que se acredita capaz de, inclusive, oferecer sugestões e pautas para o ministro da Educação, a fim de melhorar a situação do ensino atual.

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O fato de um homem que ache o estupro algo engraçado não ver nada de errado com essa conduta, além de se considerar um “cidadão de bem”, é um exemplo claro de como a violência sexual é sancionada e, não raro, incentivada por circunstâncias sociais.

Como um colega pesquisador, educador e investigador afirmou, os 33 sujeitos não são doentes; eles cometeram o ato por acreditar que tinham esse direito – seja por ter traído o namorado, seja por usar drogas e estar alterada em uma festa.

A menor de idade, segundo o que se tem noticiado, teria sido levada pelo próprio namorado ao local onde foi estuprada. Apesar do que se tem difundido, a adolescente afirma que seu ex-namorado não estava entre os 33 estupradores, os quais teriam envolvimento com o tráfico de drogas.

Há diversas versões a respeito do caso, algumas mencionando que a garota seria usuária de drogas, outras relatando que ela tinha ido ao local buscar seu celular que havia sido roubado, outras ainda explicando que se tratava de uma vingança do ex-namorado ao descobrir que havia sido traído.

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Dentre tantas narrativas, uma coisa é certa: um estupro coletivo aconteceu e imagens da adolescente desacordada e com a genitália sangrando foram compartilhadas em redes sociais.

Um dos indivíduos que publicou o vídeo da garota chegou a dizer que ela “estava acostumada”, referindo-se à sua promiscuidade, além de fazer chacota com o estado da vítima após o #Crime. Vários outros aderiram à “justificativa” de que a adolescente era alguém depravada e que, por isso, teria “merecido” o que lhe aconteceu – novamente, um discurso incansavelmente repetido e endossado. Portanto, além do ato em si, testemunhamos uma proliferação da apologia ao estupro, algo que nos remete a como a violência sexual é banalizada e, em alguns casos, até mesmo “glamourizada” – Frota e outros que assumem a alcunha de “pegador” com orgulho são a prova disso.

Passados alguns dias, a polícia começou a identificar os suspeitos e a coletar suas versões. Como já seria de se esperar, levantaram a hipótese de se tratar de sexo consensual – por mais absurdo que possa soar.

A declaração do delegado responsável pelo caso, feita ao jornal Folha de S. Paulo, é sintomática de como o estupro é minimizado e muitos estupradores acabam por não ter de responder por seus atos: "A gente está investigando se houve consentimento dela, se ela estava dopada e se realmente os fatos aconteceram", disse Alessandro Thiers. #Casos de polícia