O ataque à boate Pulse, em Orlando, pode chocar pelos números, mas não se trata de um acontecimento imprevisível. A LGBTfobia permeia a sociedade de uma forma que, muitas vezes, nem mesmo nos damos conta de estar reproduzindo preconceitos e falácias. Contudo, temos presenciado uma discriminação aberta contra homossexuais, bissexuais, transexuais e pessoas transgênero, que parece ter se intensificado com as disputas políticas e o discurso absurdo de figuras públicas influentes - uma realidade que se aplica tanto aos EUA quanto ao Brasil.

Um fato que a mídia não expôs com clareza sobre a casa noturna Pulse: a noite era para celebrar a cultura latina, contando com a apresentação de duas performers trans portorriquenhas.

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A boate de Orlando era um local frequentado por muitos latinos e "queers" - homossexuais efeminados, pessoas transgênero e não-binárias, enfim, toda uma gama de indivíduos que, pertencentes à comunidade #LGBT, não são caracterizados pelo rótulo "gay".

O ataque ter acontecido em junho leva a uma coincidência com a revolta de Stonewall, ocorrida em 28 de junho de 1969, que está para além da data. Foi a resistência oferecida por homens efeminados, drag queens e travestis a uma batida policial em Stonewall que marcou a história e motivou as Paradas do Orgulho LGBT que hoje acontecem por todo o mundo. Contudo, esses eventos continuam sendo popularmente conhecidos como "Parada Gay", um nome que torna invisível a participação ativa e crucial de outras camadas da comunidade LGBT. Quando a imprensa chama a Pulse de "boate gay", fica clara a continuação dessa exclusão.

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Omar Sadiqque Mateen, durante o ataque, chegou a ligar para o serviço de emergência, 911, para declarar aliança com o grupo fundamentalista ISIS. Esse ato, somado à declaração de seu pai de que o filho sentia ódio contra gays, evidencia o quanto preceitos religiosos afetam o pensamento do indivíduo e, não raro, estimulam um ódio gratuito - que não se restringe ao islamismo ortodoxo radical (aqui, faz-se importante lembrar que islamismo não é sinônimo de radicalismo, e que a postura e interpretação fundamentalista é que são o problema, em qualquer religião). Posteriormente, a declaração de um colega de trabalho de Mateen reafirmou sua #Homofobia e adicionou o racismo à equação. O atirador também agredia a ex-mulher, que precisou de proteção para se separar dele.

Católicos e protestantes também sentem ódio contra LGBTs quando acreditam em interpretações radicais e não-contextualizadas da Bíblia, algo que pode ser exemplificado com comentários em reação à própria notícia do ataque em Orlando.

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Basta olhar a sessão de comentários nos portais de notícia para encontrar agradecimentos a Deus pelo massacre, culpabilização das vítimas - que, pecadoras, mereceram morrer -, entre outros absurdos.

No Twitter, o pastor e deputado Marco Feliciano acusou o movimento LGBT de tirar proveito dos atentados em causa própria - e logo depois, em causa própria, aproveitou para falar sobre como o Estado Islâmico tem dizimado cristãos. A política brasileira nos oferece uma imagem bastante clara do perigo que discursos como o de Feliciano e de uma série de outros parlamentares representam.  

Além da deslegitimação do preconceito e da exclusão social, esse tipo de líder religioso e político usa da fé alheia para estimular posições contrárias aos direitos das minorias. Ideias como "defesa da família", "ditadura gayzista", "heterofobia", "cristofobia", "ideologia de gênero" e diversas outras distorções são adotadas estrategicamente para convencer os eleitores de que a comunidade LGBT é uma espécie de inimiga da moral e dos bons costumes.

Nos EUA, Donald Trump faz o mesmo quando discursa sobre imigrantes e transforma o racismo em algo aceitável.

O preconceito, em todos os níveis, leva a barbáries como a da madrugada de 12 de junho. As explicações podem estar em uma suposta fé, na "opinião", em experiências pessoais, mas é preciso que não as aceitemos como justificativas. Nada justifica o ódio. #Violência