Andávamos por aí soltos como se libertos de nossos cárceres, livres de uma vida de retrocesso, de amargas privações, desatentos. O racismo - acreditava o outro em uma inocência tão pueril quanto espantosa – “está erradicado, não existe mais”. Até que em uma esquina qualquer somos surpreendidos, a nossa espreita, a intolerância, o desrespeito, o desserviço. Não existe uma área onde os olhos alcancem que esteja livre dessa doença – mesmo em locais onde o respeito a diversidade deveria ser estimulado, o que vemos sendo edificado é a cultura da intransigência, como no caso em que a mãe que recebeu uma notificação da orientadora pedagógica da #Escola Educandário Eliane Nascimento, onde seus filhos, Antônio e Bernardo estudam, no Rio de Janeiro, para cortar ou prender-lhes os cabelos crespos. 

É notório que os ataques aos direitos fundamentais de mulheres e homens, negros ou não, em tempo algum alcançou a trégua, é repugnante que, ainda hoje, sinais que caracterizam a diversidade sejam para alguns a premissa sobre a qual se fundamenta a superioridade de uma raça sobre a outra.

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É trágico que tal corrente de pensamento ainda seja vigente.

A coordenadora aqui mencionada, incomodada com a estética das crianças, tratou de notificar a mãe dos meninos, Débora Figueiredo, por meio de um recado que dizia: “Mamãe Débora, peço-lhe se possível aparar ou trançar o cabelinho dos meninos. Eles são lindos, mais (sic) eu ficaria mais feliz com o cabelo deles mais baixo ou preso”. É o teatro do absurdo, não há outro meio de visualizar essa situação.

O que distingue um indivíduo do outro é a associação de todas as suas características: entre outras, a cor da pele, os contornos dos olhos e lábios e o tipo de cabelo, este último para o negro, é muito mais do que um elemento de composição estética, é também parte da construção de sua identidade, do seu processo de aceitar-se quem é.

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O diferente, o novo, clama para ser conhecido, para ser descoberto, e não deveria ser alvo de críticas, principalmente por quem cabe o exemplo.

A sociedade contemporânea julga com uma severidade sem limites, é conservadora e está corrompida, o lamaçal da crise na qual estamos submersos não é somente político e econômico, vivemos também uma crise que vai além da desigualdade social, dos problemas de segurança e na área da saúde e educação, vivenciamos hoje uma crise moral. O que estamos ignorando são os princípios pelos quais se regem uma sociedade que de fato se desenvolveu, o que estamos sacrificando é a nossa consciência social. Já é hora de pararmos de perpetuar nossos tempos extremos, é urgente a necessidade de mudarmos nossa mentalidade e de fazermos do Brasil o país que sempre sonhamos. A piada de que “o melhor e o pior do Brasil são os brasileiros” há muito tempo deixou de ser engraçada, que sejamos apenas o melhor do nosso país, mas, para isso, já é tempo de arregaçarmos as mangas e assumirmos a responsabilidade pelos nossos atos.

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Nós, os afrodescendentes, possuímos um referencial de beleza diferente, amparado em nossas raízes ancestrais, culturais, pois eu sou o que sou devido ao que todos nós somos. #Crise no Brasil #Racismo