Ao ser questionado sobre a tentativa de golpe militar na Turquia, o ex-presidente do país, Abdullah Gul, respondeu à CNN turca: "Em primeiro lugar, não confundam a Turquia com um país da América Latina ou da África. Aqui não se pode tomar o poder do dia para a noite". À primeira vista, o termo pode representar um desrespeito às nações latino-americanas. Mas uma análise aprofundada dá tristeza, ao ver o modo com o Brasil e outros países são vistos mundo afora.

Aos fatos

A  América Latina conviveu com dura situação desde os tempos da colonização: culturas milenares inteiras como os incas, os maias, os astecas e as milhares de etnias indígenas brasileiras foram dizimadas pelos colonizadores europeus que aqui chegaram e impuseram suas crenças, seus valores e sua economia ao modo de viver dos povos nativos.

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Assim, desde a sua "descoberta" no raiar do século XVI, a futura América Latina tornou-se um rico objeto de exploração do europeu, fato largamente cantado em prosa e verso em músicas como "Índios", da Legião Urbana, ou em obras científicas como "As veias abertas da América Latina", de Eduardo Galeano. Nos séculos seguintes, a escravidão de africanos foi a base das economias e de mais exploração pelos colonizadores. Depois, veio a "independência" e a continuação da vivência de submundo.

No século XX, ditaduras militares assolaram os países da região, cassando liberdades democráticas e relegando o território a mero "quintal" de influência norte-americana. Assim, os Estados Unidos financiaram ditaduras e quebras de regime democrático em nome da "caça ao comunismo", em um tempo de guerra ideológica, a "Guerra Fria".

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No século XXI, entretanto, o golpe se modernizou: já não há tanques, resistência e derramamento de sangue. Apenas se toma o poder em nome da "caça aos corruptos", como, aliás, já acontecera em outros períodos históricos. Este conceito pode se aplicar ao que aconteceu em Honduras, no Paraguai e, mais recentemente, no Brasil.

A situação do Brasil

Entre 1930 e 1945, no governo de Getúlio Vargas, pela primeira vez o povo brasileiro teve uma expansão dos seus direitos trabalhistas, previdenciários e sociais, ainda que de forma populista. Quando voltou de forma democrática em 1951, Getúlio enfrentou forte oposição da mídia tradicional. Acuado por denúncias de corrupção (que nunca se confirmaram), preferiu cometer suicídio a renunciar ao poder. 

Dez anos depois, João Goulart, ministro do Trabalho de Jango e que assumira como presidente em 1961 após renúncia de Jânio Quadros, é derrubado com a mesma desculpa: o "mar de corrupção", "passar o país a limpo". O resultado: vinte e um anos de ditadura e retirada de direitos.

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Quando o país passa a respirar de novo a democracia, em 1988, o neoliberalismo, marcado pelo arrocho e pela privatização, de novo enfraquece o povo sofrido.

Com a ascensão de Lula em 2003, o país passa por um novo momento de expansão de direitos. Novamente, as denúncias de corrupção e a mídia tradicional tentam enfraquecer o governo com o tema da corrupção. Lula resiste e faz a sucessora. 

Em 2016 um processo de impeachment derruba a presidenta eleita e põe em seu lugar o vice. Com baixa popularidade, mas mantendo o apoio de setores da sociedade civil, #Dilma Rousseff mantém uma boa base. Contra ela não há denúncias de enriquecimento ilícito, recebimento de propina, mas apenas infrações orçamentárias. 

Manifestações internacionais de presidentes, deputados, senadores e da imprensa de outros países afirmam tratar-se de golpe pela falta de crime. Parece que estamos de volta ao passado das rupturas democráticas.

O fato triste

No momento atual, ouvir esta manifestação do ex-presidente turco é lamentável, mas é a mostra de como o mundo nos vê. Uma republiqueta de bananas, que não consegue conviver com as diferenças políticas e parte para os golpes.

Triste dia para nós.

Uma vergonha para o país perante o mundo, bem quando vamos receber as Olimpíadas. #Protestos no Brasil #Michel Temer