Depois de 8 meses de tortura para a quase totalidade dos brasileiros - "quase" porque até as mais abjetas figuras sempre terão quem as defenda, por trocados ou puro equívoco -, um novo presidente da Câmara foi eleito. Acabou o sofrimento? Não. Parece que o sofrimento não tem fim. Não comemoramos o afastamento de Cunha pelo STF, porque só se deu depois da deflagração do processo do impeachment de Dilma. A divulgação de gravações que deixaram clara a real motivação dos que queriam o impeachment de nada nos serviu. Sabíamos que Cunha ainda teria muito poder, através dos tentáculos que plantara dentro da Câmara.

Publicidade

Também não comemoramos a renúncia de Cunha ao seu cargo, na semana passada, com direito a performance hollywoodiana, porque sabíamos que nada de nobre havia nela.

Publicidade

Depois de breve período sob a legítima, mas patética, liderança de Waldir Maranhão, a Câmara elegeu Rodrigo Maia, que a presidirá até 31 de janeiro de 2017. Mas a brevidade desse mandato também não significa nada. Grandes estragos podem ser feitos muito rapidamente, haja vista o retrocesso promovido por dois meses de #Governo Temer.

Rodrigo Maia, liberal do DEM, foi um dos que votaram pelo impeachment de Dilma. Para se eleger presidente da Câmara teve o apoio da oposição a Dilma e até de petistas. Eleito, declarou que Aécio Neves foi "fundamental para sua vitória". Lindbergh Farias, do PT, em desabafo nas redes sociais, disse ser absurdo comemorar sua vitória, pois ele é do DEM e atuará pela retirada de direitos dos trabalhadores.

Publicidade

Maia é genro do ex-governador do Rio, Moreira Franco, investigado na Lava Jato, destituído do cargo de ministro ao final do primeiro mandato de Dilma e, hoje, braço direito de Temer.

Há os que se consolem crendo que Maia salva a Câmara da influência de Cunha, que se daria através de Rogério Rosso, se ele vencesse. Maia diz que ajudou a eleger Cunha, que não lhe será hostil e que, talvez, ele tenha sido o "melhor presidente da Casa".

Aprendemos que em uma democracia o voto da maioria sempre será respeitado. Nossa Constituição diz sermos uma democracia. Um processo de impeachment se iniciou por retaliação e com uma denúncia comprada por 45 mil Reais pelo partido derrotado nas urnas. Tal denúncia tem como objeto pedaladas fiscais e decretos suplementares que jamais haviam sido tratados como crimes. Defensores do impeachment declaram publicamente que Dilma está sendo afastada por má gestão ou falta de popularidade, e não pelos motivos alegados na denúncia, o que faz do processo uma grande mentira.

Publicidade

O mundo percebe que vivemos um golpe, mas nossa imprensa finge não perceber e trata os golpistas como legítimos governantes. Os paneleiros também fingem não perceber que apoiaram a destituição de Dilma para que seu lugar fosse ocupado por corruptos sem a menor intenção de olhar para o povo. Vivemos, hoje, sob o lema de Temer, "Ordem e Progresso". Ordem para o povo, que não é consultado para nada e deve ficar quietinho, e progresso para os ricos. Os entreguistas agem livremente e o governo interino não se comporta em nenhum momento como interino.

E, tristemente, se percebe certa pasmaceira no ar. Talvez níveis altíssimos de indignação tenham efeito sedativo. Talvez o povo esteja esgotado. Fingimos viver normalmente, assim como os povos atingidos por ataques terroristas, simplesmente porque não podemos parar. O mundo capitalista não nos permite sequer refletir com calma, quanto mais persistir protestando sem sermos ouvidos. Estamos vivendo sob a égide da mentira.

#Eduardo Cunha #Câmara dos Deputados