Você é aquilo que você come. É também aquilo que veste, deseja e, principalmente: você é aquilo que você acredita. Ou seja, nossa personalidade é também constituída por nosso posicionamento político, religioso, filosófico, etc. Não conseguimos nos separar de nossa própria ideologia, portanto, é impossível ser neutro. 

Assim, nenhum ser humano é capaz de se mostrar neutro e, mesmo que o fosse, a neutralidade ainda seria uma #Opinião (a de concordar com o status quo, como dizia Paulo Freire). Portanto, o Projeto de Lei "#Escola sem Partido", que tem causado polêmica entre educadores, famílias e estudantes brasileiros não resultará em uma escola sem ideologia, reflexão e criatividade.

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O desenvolvimento crítico é inerente ao ato educacional: estuda-se um conceito, assimila-o, interpreta-o, compara-o com outros conceitos aprendidos, forma-se uma opinião, ideia ou novo conceito a partir dele, e daí por diante. Esse é o ciclo da aquisição do conhecimento e da formação do indivíduo. Assim, não há #Educação sem análise crítica.

O título do projeto é sugestivo, não deixa claro se irá propor o fim da disputa política entre vermelhos e amarelos nas escolas (que, sim, parece ter sido abusiva nos últimos tempos) ou se tem a diabólica missão de acabar com o desenvolvimento crítico dos estudantes e alienar a população (como andam dizendo por aí). 

Vamos verificar na redação do artigo 5º, onde se esclarece que o professor:

I- Não se aproveitará da audiência cativa dos alunos para promover os seus próprios interesses [...];

II- Não favorecerá nem prejudicará ou constrangerá os alunos em razão de suas convicções [...];

III- Não fará propaganda político-partidária [...];

IV- Ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito;

V - respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções;

VI- não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de estudantes ou terceiros, dentro da sala de aula.

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Concordamos que são muitas vezes inadequadas apologias a este ou àquele partido político, religião, orientação sexual, etc. Ao rejeitarmos essa proposta, nos abdicando de apresentar a nossos alunos diferentes pontos de vista sobre os temas em pauta (ainda que não concordemos com eles), estaremos comprometendo inclusive a nossa própria capacidade de análise e respeito pela liberdade do outro.

Ao argumentar contra o projeto, muitos entendem que o professor não poderá educar o aluno para a tolerância e o combate ao preconceito de qualquer ordem (racial, social, orientação sexual, etc.). Já se parou para pensar que há também professores preconceituosos que buscam reforçar suas crenças e propagar suas atitudes por meio de seus alunos?

É preciso ressaltar que as regras valem para ambos os lados.

Uma vez que nossa posição é assumida, nosso comportamento e exemplo será ou não seguido, de acordo com as impressões que causamos nas outras pessoas, sem necessariamente levantarmos bandeiras.

Eu posso, enquanto aluno, ter um professor que defende X partido político e considerá-lo um alienado o qual jamais terei como modelo.

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Assim como posso admirar e perceber a coerência no comportamento de outro professor que, sim, analisarei melhor a sua opinião e talvez utilizarei como referência em minha própria identidade.

Assim, não precisamos temer o projeto de lei. Diferente do movimento que o gerou, ele parece ser inofensivo. Ele não tem a capacidade de ferir a identidade e os valores de cada um, até porque, isso seria impossível em qualquer situação de comunicação. Como sabemos, a mídia tem uma representação muito maior na formação ideológica dos estudantes do século XXI do que a sala de aula, no entanto, está cada vez mais distante a possibilidade de controlar a informação veiculada por ela.