A ##Sociedade em que vivemos tem sido marcada pelo extremismo. Ouso formular a hipótese de que a nossa sociedade, ao longo de seu processo histórico, vive hoje a fase mais crítica em questão de ##intolerância, desrespeito e aceitação. Temos dificuldades de conviver com as ideias do outro, com as crenças do outro, com a cultura do outro e com as escolhas do outro. Temos dificuldade de lidar e conviver com as diferenças e com a pluralidade. 

Mediante os embates políticos e ideológicos que o país está vivendo, ouvimos com certa frequência sobre liberdade de expressão; mas, apenas fazemos valer a liberdade de expressão, quando as ideias levantadas vão de encontro com os ideais, costumes, crenças e valores que eu defendo ou que o meu grupo defende.

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Obstante a isto, partimos para o desrespeito e para a intolerância. Quando faltam argumentos para convencer o outro daquilo que, no juízo de valores de cada um, se considera ser verdade absoluta, normalmente as pessoas tentam ganhar no grito, se impondo pela violência, pela agressividade, pela força ou pela ofensa.

A nossa geração possui sérias dificuldades de ouvir o outro e ponderar que ele tem o direito de pensar diferente de mim. Quando se trata da 'minha opinião' é a liberdade de expressão, mas quando se trata do outro, eu digo que ele é extremista, fundamentalista, radical e por ai vai. Em suma, "respeito o outro, desde que ele pense, sinta, aja e fale como eu".

A liberdade de expressão X intolerância

Nesta semana, eu vivenciei uma experiência interessante: ao emitir uma opinião política em uma de minhas redes sociais, fui atacado por um adolescente de doze anos que me chamou inbox para proferir-me palavras de censura formuladas por meio de um linguajar de baixíssimo calão.

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No juízo de valores daquele garoto, ele acreditava que estava me ofendo por, aparentemente, discordar de uma opinião política. Ou seja, um adolescente de doze anos, sequer considerou a hipótese de que pelo fato de eu ter o triplo de sua idade, sou dotado de uma certa experiência de vida e por eu ter me aprofundado, dedicando dez anos de estudo sobre política haveria uma possibilidade, ainda que mínima, de que a minha opinião fosse levada em consideração. 

Não estou dizendo que a minha verdade é absoluta, mas sim que o garoto não possui maturidade ideológica e intelectual para formular uma opinião política de tamanha complexidade, o que me leva a crer que sua atitude 'ofensiva' não está atrelada a uma opinião e sim à reprodução de um discurso de ódio e intolerância que ele aprendeu através da socialização.

A reflexão a ser feita é: Que modelo de liberdade de expressão é esta, em que apenas a minha ideia é valorizada e pelo fato do outro pensar diferente merece ser ofendido?

A barbárie não se constrói em meio ao retrocesso, mas sim em meio àquilo em que a classe dominante chama de ordem e progresso; pois se assim não fosse, não veríamos a Alemanha Nazista, a potência mais avançada científica e tecnologicamente em sua época, impor um modelo de Estado de exceção fundamentado na barbárie contra os considerados "inferiores".

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Construindo valores

A liberdade de expressão é atinente ao próprio processo democrático. Ambos frutos das evoluções políticas da Grécia Antiga. Dentro do sistema que os atenienses chamavam de democracia, os cidadãos se reuniam em uma roda de conversa numa praça pública (Ágora) e discutiam os temas mais importantes para a pólis. Sim, exatamente como está grifado, liberdade de expressão e democracia pressupõem debates, confrontos de ideias, pluralidade de opiniões e sobretudo, o respeito ao pensamento de outrem. Não há democracia e liberdade, quando um ou um grupo impõe uma tendência ou um ##Comportamento pelo viés da força.

O radicalismo e a intolerância conduzem ao ódio. O respeito e a aceitação constroem uma sociedade democrática e realmente livre. Ninguém deve ser subjugado ao ódio por não ser da forma como outro gostaria. Conviver com as diferenças não é um desafio, é um ato de civilidade.