Um vídeo que mostra o ator Alexandre Borges em um quarto de hotel na companhia de duas travestis foi compartilhado aos montes nas redes sociais, sendo classificado pelo colunista - aparentemente, responsável pela divulgação do mesmo - Leo Dias como "comprometedor". Considerando que desde 2015 o ator está solteiro, podemos inferir que o que o compromete seria o fato de estar com travestis, uma visão bastante preconceituosa que infelizmente é reforçada com frequência pela mídia.

Outro caso que até hoje rende comentários é o de Ronaldo "Fenômeno", que à época foi classificado como "escândalo", e fazendo com que o ex-jogador se tornasse alvo de piadas.

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A reação dele se repete, agora, com Borges, que fez uma declaração afirmando não ter percebido, a princípio, que as mulheres eram travestis. É como se a atração sexual por travestis fosse uma falha de caráter e precisasse de alguma justificativa para conferir a certeza da heterossexualidade ao público.

Em primeiro lugar, travestis têm uma identidade de gênero feminina e, socialmente, apresentam-se como mulheres. Sendo assim, o homem que sente atração pela travesti continua sendo heterossexual. O que acontece durante o ato sexual em si não é definidor da orientação do indivíduo, pois, sabemos, há homens heterossexuais que sentem prazer quando são penetrados por suas parceiras - isso só não é falado abertamente.

Em segundo, o controle público da vida íntima de pessoas famosas é que precisa ser ética e moralmente questionado, e não o que essas pessoas fazem quando não estão diante das câmeras.

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Trata-se de uma estratégia que faz com que o sujeito passe, ele mesmo, a se vigiar, reproduzindo e ajudando a manter a ordem e a manter as relações de poder como estão. É por meio do ato de vigiar uns aos outros que nos tornamos úteis ao sistema e submetidos a ele: apontamos o dedo para quem não se submete, pressionando-o a se adequar.

Pessoas como as travestis não estão dentro das normas e expectativas de gênero sociais, por isso nos esforçamos tanto para que elas permaneçam à margem da sociedade. Para que elas sejam aceitas, precisam se submeter a uma lógica perversa que obriga as mulheres transgênero a seguirem um padrão de #Comportamento e de estética associado à "mulher respeitável". A mulher trans que não deseja se operar para modificar sua genitália é uma afronta à ordem, um perigo para o sistema, porque desestabiliza sua lógica.

Além das próprias trans, condenamos também os que se relacionam com elas, na tentativa de controlar a ambos, ameaçando-os com a discriminação e a exclusão. O discurso de Alexandre Borges visando a negar que teve relações sexuais e que está certo de sua "opção" [sic] sexual, é sintomático desse controle. #Transfobia