Não se engane. Assim como não é moderno usar mesóclise, as flexibilizações que o #Governo Temer anda propondo nada têm de moderno. Ao contrário, têm cheiro de coisa antiga. Por "coisa antiga" chamo tudo o que vai no sentido de preservar o status quo, de manter uma sociedade com níveis de hierarquia que determinam claramente quem pode mandar e quem tem que obedecer sem reclamar, e tudo o que é imposto sem consulta às partes interessadas. Isto é muito, muito antigo.

É parte do aparato manipulatório golpista o eufemismo, usado para transformar o que é feio em algo que "pareça" não tão feio, minimizando a rejeição da opinião pública, que leva um tempo para entender "a real".

Publicidade
Publicidade

Troca-se "golpe" por "impeachment", "censura" por "escola sem partido", "arroxo" por "flexibilização da CLT", "currículo para formar robôs" por "flexibilização curricular" e assim por diante.

Um mesmo conceito pode ser interpretado de formas diferentes, dependendo do intérprete. Se você procurar no Google o que é "resiliente", por exemplo, concluirá ser um adjetivo positivo, porque o funcionário resiliente - o que mantém o sangue frio, enfrenta situações inusitadas e se recompõe rapidamente dos fracassos - é o sonho de consumo das empresas. Já Clóvis de Barros Filho, professor de filosofia e profundo conhecedor do mundo corporativo, define o vocábulo como "o idiota colaborador - aquele que é humilhado, extorquido, arrancado seu suor e no dia seguinte está lá, de banho tomado, dente escovado e feliz por pertencer à 'família da empresa'".

Publicidade

Como Clóvis, podemos desglamourizar o conceito de "flexibilização" com uma simples reflexão. Poderíamos discutir cada ponto desse nefasto projeto. Mas talvez mais importante seja entendermos que "flexibilização" é uma falácia, por partir de um pressuposto falso: ser possível a negociação justa entre partes hierarquicamente desiguais. A constatação dessa falácia desmonta todo o projeto de flexibilização porque, seja lá qual for o pormenor a ser debatido, não o será de forma justa.

Habermas, um dos mais importantes intelectuais da contemporaneidade, hoje com 87 anos, passou a vida a estudar a linguagem e a democracia. Na obra Teoria do agir comunicativo fala de duas esferas que coexistem na sociedade: o "sistema" e o "mundo da vida". O "sistema" refere-se à reprodução material, envolve poder político e economia e é regido pela lógica da dominação. O "mundo da vida" é marcado por processos comunicativos cujo mediador é a linguagem, o recurso é a solidariedade e o objetivo é o entendimento.

Publicidade

Por sua própria natureza, o mundo da vida e o sistema são contrastantes. Estão em esferas diferentes, têm objetivos e modos de agir diferentes e falam línguas diferentes. Imagine um diálogo entre indivíduos em posições hierárquicas diferentes, em que o que tem o poder usa a razão para dominar, sem a preocupação de atingir um consenso, em uma ação estratégica a que Habermas denomina "cálculo egocêntrico", e o que depende de um emprego para comer espera solidariedade e entendimento. Pode resultar daí uma decisão democrática?

Habermas afirma: "Somente as leis que surgem de um processo discursivo, debatido por todos os cidadãos interessados, em situação de igualdade de oportunidades e direitos, são democraticamente legítimas." Esta citação sintetiza com maestria as razões da minha convicção de que a "flexibilizacão" é uma falácia. E justifica essa permanente sensação de vivermos uma ditadura desde que o governo Temer nos foi imposto.

Em 2014, já sobre o assunto: 

#Educação #Trabalho