No Brasil, acabamos de enfrentar o primeiro turno das eleições municipais e, em grande parte, os resultados são sintomáticos de uma cultura narcisista que faz com que nossas prioridades individuais se reflitam em nossas escolhas políticas: em vez de votar para que toda uma comunidade possa melhorar, decidimos com base nas possibilidades que nos trarão benefício próprio.

Um caso exemplar é o de São Paulo, onde Fernando Haddad, apesar do elogio à sua gestão até mesmo pelo The Wall Street Journal, enfrentou múltiplas críticas à implantação de ciclovias e programas sociais. O assistencialismo e o foco em questões sociais, não apenas no caso de Haddad, mas de todos os políticos de esquerda, tornou-se o grande vilão contemporâneo, e essas tendências vêm sendo curiosamente rechaçadas até pelos que se beneficiam delas.

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A verdade é que, para um indivíduo que usa seu carro diariamente para se deslocar, não interessa que a implantação de ciclofaixas possibilite o trânsito de trabalhadores sem carro e reduza a emissão de gás carbônico na medida em que incentiva pessoas a usarem suas bicicletas para percorrer distâncias menores, afinal, o grande problema é que ele não tem onde estacionar seu veículo e é obrigado a dividir o espaço das ruas que, antes, era só dele.

João Doria Jr., o favorito nas urnas de São Paulo, por sua vez, é um herdeiro com um currículo de condenações na justiça: ex-presidente da Embratur, foi condenado por desvios de verbas nos anos de 1987 e 1988; tendo invadido e anexado área pública em Campos do Jordão à sua propriedade, foi condenado a devolver o terreno em 2009, entrou com recursos que foram indeferidos, mas manteve a ocupação da área até que o repórter Cesar Tralli o questionou e trouxe o processo à tona, fazendo com que a justiça o mandasse, novamente, devolver o local à prefeitura.

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Apesar de sua campanha falar de seu enriquecimento em função do trabalho, Doria Jr. veio de uma família abastada e não foi a profissão, como empresário, que o tornou um dos candidatos mais ricos a concorrer em São Paulo. Não é preciso muito para prever que sua gestão será voltada para o favorecimento de empresários e da elite paulista.

Nos discursos a respeito da #Política como um todo, temos notado que o descontentamento parte não apenas da crise econômica enfrentada pelo país, mas de como essa crise afetou, individualmente, a classe média e, de alguma forma, a crença é a de que foram os programas assistencialistas responsáveis por isso - mesmo que representem uma parte dos gastos públicos bastante inferior, por exemplo, ao índice de sonegação de impostos e de desvios de recursos.

Outras questões referentes à concessão de direitos e vantagens às minorias sociais, na busca de um nivelamento de oportunidades, também entram na estratégia de demonização: cria-se a falsa concepção de que são privilégios quando, na verdade, são apenas formas de reduzir a diferença entre eles e os reais privilegiados.

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A aproximação, ainda que ínfima, de grupos socialmente privilegiados é encarada como uma ameaça pelo indivíduo que não aceita que o outro precise de um auxílio para atingir um sucesso que, no caso do não-oprimido, aparece como resultado unicamente de seu esforço, uma vez que ele não enfrenta grandes obstáculos sociais.

Ao que parece, justificar o voto motivado pelo bem-estar coletivo está em baixa porque interessa mais ao eleitor o que ele, individualmente, pode ganhar com este ou aquele político. Além do mais, a polarização entre esquerda e direita reforça o sentimento de um "nós" contra "eles" que pressiona o sujeito a assumir uma posição definitiva, como se um lado ou outro fosse o único detentor de uma verdade absoluta - que simplesmente não existe nesse jogo.

Dificilmente será possível construir algo sólido para a comunidade se mantivermos essa base narcisista de pensamento que nos impede de encarar o outro não como inimigo, mas como alguém com quem precisamos dialogar e chegar a conclusões positivas para a sociedade como um todo. #Eleições 2016