Após divulgar o caso de Kyler Prescott, adolescente trans de 14 anos que se matou após ser internado na ala psiquiátrica de um hospital para ficar em observação sob risco de suicídio, e a iniciativa de sua mãe de processar a instituição porque os funcionários insistiam em tratar o garoto no gênero feminino, deparei-me com um comentário curioso na matéria que escrevi, o qual reproduzo em sua integridade sem mencionar a identidade do indivíduo que o fez: "Ta claro que nao foi por esse motivo. Fica evidente que havia algum distúrbio psíquico. Nao é habitual uma criança cometer #Suicídio por ser contrariada em termos de genero, raça ou crença . Se fosse o caso teríamos um numero imenso de suicídios similares".

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Sinto a necessidade de abordar, a partir desse comentário, um desconhecimento da população geral: as taxas de suicídio são, de fato, bem maiores entre pessoas #Transgênero, precisamente porque são obrigadas a viver em uma sociedade que as discrimina e as coloca em uma situação de violência diária.

Dizer que não é habitual uma criança cometer suicídio por ser "contrariada" é um tanto quanto estúpido, uma vez que o suicídio, por si só, não é habitual, independente das motivações. Muito pelo contrário, evitamos tratar do suicídio a qualquer custo por medo de que o simples fato de aludir ao tema possa levar a mais suicídios. Contudo, trata-se de algo muito mais recorrente entre pessoas que não têm sua identidade de gênero respeitada quando comparamos os números com as estatísticas da população geral.

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Portanto, temos, sim, um número muito maior de casos de suicídio em situações similares - se esses casos são ou não divulgados, é uma outra questão e cabe ao indivíduo ter conhecimento dessa realidade antes de fazer qualquer comentário sobre ela sem fundamentação sólida.

Segundo pesquisa divulgada em janeiro de 2014, fruto de uma parceria entre o Williams Institute, do departamento de Direito da UCLA, e a American Foundation for Suicide Prevention, nos Estados Unidos, 41% das pessoas trans entrevistadas relataram já ter atentado contra a própria vida - enquanto a porcentagem entre a população geral é de 4,6%. Os números se mostram ainda maiores quando alguns fatores demográficos são levados em conta: 45% das tentativas de suicídio ocorrem entre jovens de 18 a 24 anos; 54%, entre pessoas que se declaram multirraciais. Ainda de acordo com o estudo, entre as principais motivações para tentativa de suicídio, além da condição mental, estão as experiência de perseguição, assédio, violência, discriminação e rejeição, fatores que, juntos, levam o indivíduo a um estado de maior vulnerabilidade.

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É preciso lembrar que ser "contrariada em termos de gênero" é só uma parte da opressão enfrentada pela pessoa transgênero que indica, na verdade, uma resistência à legitimação da condição trans que se reflete em diversas outras situações, as quais se estendem por toda a vida. Especificamente no caso de Kyler, não foi a atitude desrespeitosa das enfermeiras, isoladamente, que o levou a cometer suicídio, mas não há dúvidas de que isso agravou seu quadro de depressão - problema que ele vinha enfrentando devido ao bullying online que sofria recorrentemente. Conforme sua própria mãe relata, a discriminação por parte de funcionários do hospital o levou a um espiral de intensificação da crise pela qual já passava, uma atitude revoltante principalmente porque vinda de profissionais que deveriam zelar pelo bem-estar daquele paciente. #Transfobia