Por volta de dois anos atrás, “vazou” no facebook o vídeo de um homem de mais de 30 anos estuprando uma garotinha de 7. Os mais sem noção, em sua defesa pelo absurdo do compartilhamento, alegavam que “nem dá pra ver direito”, talvez se baseando nos filmes pornográficos que estavam acostumados. Independente de ter sido possível ou não verificar detalhes do ato, o mesmo estava exposto violentando ainda mais a vítima a cada compartilhamento.

Todos eles tinham o mesmo tom de indignação e desejo de morte ao estuprador, mas todos eles expunham uma criança que já havia tido seu corpo violado. Além do absurdo indizível de se compartilhar o terror de uma criança sob a justificativa do “tem que denunciar” (mas compartilhamento não conta como denúncia), o material era classificado como pornografia infantil e sua propagação é crime.

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Durante alguns dias milhares de pessoas, em grupos de whatsapp, detiveram em sua posse pornografia infantil; a necessidade de #Banalização do horror transformou milhares de cidadãos em donos de material pornográfico envolvendo criança. Chegou a tal ponto a falta total de noção dos responsáveis que algumas pessoas começaram a denunciar aqueles que os enviavam o vídeo insistentemente sob a bandeira do “olhem que horror, que esse homem morra”.

Sob o disfarce da boa intenção, são compartilhados diariamente milhares de vídeos e fotografias com os mais variados níveis de exposição de pessoas em situação de extrema violência. O mais trágico de tudo isso é que entre a inocência de alguns de realmente acreditar que a propagação desse conteúdo é denúncia, tem um bom número de pessoas que apenas o fazem em nome de sua própria popularidade: #Tragédia e violência garantem likes.

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O simples fato de ser mais fácil encontrar pessoas usando seus celulares para filmar catástrofes do que para ligar para o socorro é prova disso. É preciso garantir a melhor imagem, é preciso garantir o post com o maior número de likes e compartilhamentos. Até nas coisas com aparência mais simples, como o cidadão flagrado em dúvida de qual seria o melhor ângulo para o selfie em frente a um pequeno acidente na passagem da tocha olímpica - que o tornou piada na internet, ou as brigas de vizinhos que chegam ao facebook em todos os ângulos possíveis.

É o sensacionalismo dos programas policiais com manchetes alarmistas alcançando o cidadão comum, agora munido de câmera e voz nas redes sociais. Diariamente há uma nova vítima, uma nova tragédia jogados online para o deleite dos caçadores da dor alheia e dos mendigos de #Like. A total banalização do horror em nome da popularidade na rede.

Entre os bem-intencionados, é preciso criar uma cultura de respeito à vítima, de não propagação da dor alheia, talvez isso desencoraje os caçadores de likes e seus posts violentos; a perda de público, de popularidade é a única resposta cabível a quem explora o sofrimento do outro para conquistar seguidores.