Luciane (nome fictício) tem 24 anos e é estudante de arquitetura da USP. Francine (nome fictício) tem 17 anos e acabou de fazer o ENEM, interessada no mesmo curso de Luciane. Recentemente ambas se candidataram à vaga de estagiária em um escritório de arquitetura na Grande São Paulo. Luciane está no sétimo período e já fez alguns trabalhos na área, Francine é completamente inexperiente. Pode parecer óbvio que a vaga era de Luciane, mas não foi. Francine é branca de classe média. Luciane é negra de periferia e o primeiro comentário que ouviu na entrevista de emprego foi a sugestão de alisar o cabelo para a próxima oportunidade. Francine inicia no estágio em fevereiro.

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O caso de Luciane não é isolado, sobram relatos em páginas anti-racismo no Facebook de pessoas negras cujos currículos não foram sequer aceitos pelas empresas com vagas abertas nos mais variados segmentos; exceto em ramos de baixo status social, como empregada doméstica ou porteiro, onde predominam pessoas negras.

Recentemente o Governo do Estado do Paraná fez um experimento mostrando fotografias a dois grupos de profissionais de RH. Para um grupo os modelos das fotografias eram brancos, para outro eram negros. Enquanto para o grupo com fotos de pessoas brancas um rapaz correndo era alguém com pressa, para o outro era um ladrão em fuga. Para o primeiro a moça segurando uma roupa era estilista, para o outro era a vendedora. Para o primeiro o homem de terno era um executivo, para o segundo, o motorista.

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A sociedade se acostumou - ou fez com que fosse assim - a não ter pessoas negras em cargos altos ou postos de destaque a ponto de duas pessoas fotografadas em situações idênticas serem rotuladas de formas opostas - a moça cuidado de sua própria casa/a empregada doméstica, o executivo/o motorista - até chegar no caso mais grave, onde o branco é apressado e o negro é o bandido. Atribuímos, enquanto sociedade, um lugar de submissão, servidão e criminalidade aos negros e exaltamos aqueles que fogem à nossa própria construção como se esses raros casos amenizassem o peso de séculos de segregação.

Um bom exemplo é o ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa. Em um país de maioria negra, termos um ministro do mais alto grau da justiça brasileira depois de 72 anos de uma corte integralmente branca não é motivo de celebração, é um escárnio, e maior ainda que se use o exemplo vitorioso de Joaquim para cobrar o mesmo feito de milhares de pessoas discriminadas, excluídas e marginalizadas pela cor da sua pele.

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Joaquim Barbosa é a exceção que confirma regra. O fato de ser enaltecida sua presença lá como o único negro em 72 anos é a confirmação máxima de que o discurso meritocrático possui falhas grotescas. Afinal, é impossível que em um país de maioria negra apenas um homem em quase um século teve de fato capacidade de chegar lá. A vitória é, na maioria dos casos, totalmente dependente do ponto de partida, e é desonesto afirmar que um garoto branco rico tem exatamente as mesmas oportunidades de um garoto negro de periferia, cujos ascendentes até não muito tempo atrás viviam sob condições degradantes e acorrentados.

Cada negro que atinge uma posição diferente da reservada a si pela sociedade deve servir como representatividade para encorajamento de seus pares, mas eles não representam o fim do #Racismo, e sim a confirmação de sua existência. Caso contrário, Joaquim Barbosa seria só mais um, e não o único. #consciência negra #Discriminação