Escrevo de leigo para leigo já que não sou especialista em nada, muito menos cientista politico. Quando ocorreu o golpe militar de 1964 eu tinha então 11 anos de idade. Acompanhei os acontecimentos com a visão limitada pelos meios de comunicação da época e a distancia inerente a uma criança sobre fatos e fenômenos políticos. O que se ouvia então era que a tomada de poder pelos militares seria uma resposta a uma iminente invasão comunista no Brasil. Segundo se dizia, os comunistas seriam “seres muitos maus que inclusive devoravam ou degustavam criancinhas” (dizer que comiam ganha duplo sentido).

A história registrou os fatos terríveis da época e hoje não há como se contestar.

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Ocorreu uma quebra da ordem institucional quando os militares, saindo dos quarteis, assumiram uma função diversa da que a constituição determinava para eles dentro nosso ordenamento jurídico/legal. Houve a usurpação do poder, a censura da imprensa, as torturas, mortes e prisões arbitrárias. Os direitos e garantias individuais foram suprimidos e um regime de exceção prevaleceu por 20 longos anos se impondo pela força sobre o estado democrático de direito.

Isto perdurou até o estabelecimento de novo pacto federativo e social em 1985, com a eleição indireta de Tancredo Neves (que morreu antes de assumir dando vaga ao seu vice, José Sarney). O processo de abertura politica teve sua sequência culminando com a constituinte de 1988 e a eleição direta de Collor de Mello em 1989.

O impeachment de Collor foi considerado um ato legal como previsto na constituição, assim com o foi recentemente o impeachment de Dilma Rousseff.

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O que percebemos é que muitos dos que hoje defendem a tese de que houve um golpe de estado no Brasil no processo recente, o fazem com tirocínio comprometido com os fatídicos acontecimentos de 1964.

Traçar um paralelo entre 1964 e 2016 exige um esforço excessivo de lógica e um malabarismo intelectual que só podem ser atribuídos de um lado à #paranoia daqueles que viveram de perto os anos de chumbo, ou então em outra vertente, da desonestidade típica de quem não quer dar o braço a torcer a respeito do apodrecimento do terreno político de modo geral, e pretende levar às ultimas a defesa da ideologia que professa.

O Brasil vive hoje plena liberdade democrática, é logico que considerando a qualidade da nossa democracia. Ela não é perfeita como nunca o foi um dia. As pessoas podem ir e vir, defender suas ideias, expressar seus pensamentos e ideologias, não há censura de imprensa, os militares continuam aquartelados, os três poderes continuam funcionando de forma mais ou menos independente e harmônica.

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É claro que tudo limitado e determinado por uma democracia possível, não ideal o que, aliás, nunca veremos já que democracia é um modelo e não uma forma final e acabada.

Se admitíssemos que ocorreu um golpe em 2016, teríamos de admitir que foi um golpe contra golpistas, considerando o governo corrupto do PT e a forma com que ganha suas eleições. Um golpe endossado pela grande maioria da população como nas ultimas eleições, já que ali estaria o momento mais solene e adequado para que a nação reagisse a este golpe se assim o entendesse. Um golpe avalizado pelo Supremo e pelo congresso que tiveram mais de uma oportunidade de se manifestar a respeito.

Seríamos então uma nação golpista, o que nos lançaria num paradoxo. A teoria democrática pressupõe um regime onde prevalece a vontade da maioria. Ela não diz nada quanto à possibilidade desta maioria ser golpista ou não. A democracia que temos é a esta que aí, e não é perfeita, e a não ser que o pressuposto seja revisto continua sendo uma democracia.

Logo a tese do golpe no caso recente só pode prosperar em mentes paranoicas e/ou desonestas ou naquelas que são transformadas pelo doutrinamento e lavagem cerebral em massa de manobra para interesses político-partidário-ideológicos.

E pelos que estamos vendo, são em número cada vez menor, para o bem da nação. #democracia,