No dia 1º de agosto desse ano a parisiense Louise Delage, de 25 anos, abriu uma conta no Instagram. Entre fotos divertidas de festas, encontros sociais, viagens e passeios, Louise acumulou 79 mil seguidores em pouquíssimo tempo. Bela e perfeitamente encaixada dentro do padrão social de beleza - branca e magra - Louise recebia centenas de elogios às fotos e sua beleza em cada novo post. Apesar de Louise aparecer em absolutamente todas as fotos na companhia de um copo contendo bebida alcoólica, ninguém a recriminou por isso, ou sequer observou que seu hábito constante de ingerir bebida alcoólica devidamente registrado em todas as fotos do perfil poderia lhe prejudicar a #Saúde.

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Também não é comum - para não dizer que não acontece - que pessoas critiquem hábitos não saudáveis em propagandas onde apareçam modelos dentro do padrão ou mesmo em fotos de famosas com essas mesmas características. Entretanto, basta que a modelo suba de peso para que sua saúde vire tema de discussão.

Recentemente a marca de energético TNT fez uma campanha estrelada por duas modelos obesas, destacando a beleza e a felicidade que pode estar em todo mundo independentemente de padrões. Não demorou mais do que alguns minutos no ar para que os elogios se misturassem às preocupações com a saúde das moças. "Acho lindo vocês se amarem, mas tem que cuidar com a saúde". Sim, tem, todo mundo tem, inclusive - e talvez principalmente - quem está abaixo do peso.

#obesidade não é algo que deva ser incentivado.

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Isso é consenso inclusive entre as pessoas bem resolvidas com seus corpos acima do peso. Mas em uma sociedade que exige corpos magros, não serão as pessoas gordas bem resolvidas que servirão de exemplo às crianças, mas sim os corpos subnutridos expostos como modelo pela indústria da moda. Ninguém vai engordar ao nível da morbidez porque viu uma moça gorda feliz num único comercial. Mas acontece e é bem frequente que meninas adolescentes emagreçam até a beira da morte para se enquadrar em um padrão de beleza nada saudável. 

Entretanto, enquanto o comercial com as moças gordas recebia uma enxurrada de comentários sobre saúde, o Instagram da moça viciada em álcool recebia somente elogios como se alcoolismo não fosse um problema igualmente sério. Assim como também essas pessoas que criticaram a propaganda por mostrar pessoas supostamente não-saudáveis são as mesmas que jamais chamaram a atenção dos amigos fumantes ou deixaram de beber com os amigos pensando no fígado.

Para além dessa falsa preocupação com a saúde das moças, ainda cabe destacar o erro que gira em torno dessa noção de que toda pessoa com sobrepeso ou obesa é doente.

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Sabemos que a obesidade é, digamos, a porta de entrada para muitas doenças sim, e algumas letais; entretanto, essas mesmas doenças também acontecem com pessoas magras, não são doenças exclusivas de obesos. Da mesma forma é possível sim ser uma pessoa obesa perfeitamente saudável e uma pessoa magra doente. Ou seja, o simples tamanho do corpo não é indício forte o bastante para um diagnóstico de qualquer enfermidade.

Não se deve defender a obesidade como um estilo de vida adequado, mas é necessário apontar que a preocupação com a saúde alheia parece ter a aparência como pré-requisito - se está no padrão magro de beleza, pode ter os piores hábitos do mundo que não haverão críticas nem recomendações de estranhos.

Defender hábitos saudáveis é importante, mas sem seletividade escolhendo apenas um "grupo de risco".  Aponte cuidado com a saúde em páginas de revistas de moda com modelos anoréxicas (transtorno alimentar altamente letal), combata a indústria do tabaco e do álcool, não se foque somente nas pessoas gordas. Quando o foco se volta unicamente nas dobrinhas dos corpos, já sabemos que é apenas uma questão de #Preconceito.