Democracia.

Afinal, quem é ela? No que consiste essa palavra que remete a algo que nos parece sagrado, indissolúvel, dogmático? Na religião política, essa é a verdade que ninguém pode contestar, a divindade mais bela e perfeita, que jamais deverá ser imaculada. Ela compõe dentro do sistema global a dualidade onde a #Ditadura é o "coisa ruim". Nesse contexto, a ditadura (que virou antônimo de #Democracia) é aquela que deverá ser evitada, afastada e combatida.

Mas, afinal, o que é democracia? Não sabe responder? Então você cultua cegamente algo que não tem ideia do que significa, do que representa? Não fique triste, faz parte da nossa cultura acreditar e seguir como marionetes aquilo que nos é mostrado sem questionar.

Publicidade
Publicidade

Preferimos aceitar as coisas como estão colocadas do que debater o que elas são. Isso deixa a vida mais tranquila. Afinal, já tenho tantas coisas para me preocupar, por que então discutir a tal democracia? É melhor chegar do trabalho, sentar na frente da TV e pagar as contas todo dia 10.

Se você não parou de ler depois do parágrafo anterior, meus parabéns. Você talvez esteja a fim de debater e tentar entender melhor as coisas. Então, vamos lá. A democracia nos remete à Grécia Antiga, mais precisamente Atenas. Tratava-se de um sistema que dava aos cidadãos o direito de participar das decisões de sua cidade e debater sobre seu futuro. Mas ela não era ideal como muitos pregam. Os cidadãos - aqueles que podiam participar das decisões políticas - eram apenas os homens maiores de 18 anos e filhos de pais atenienses.

Publicidade

Portanto, eles compunham apenas uma pequena parcela da população ateniense, em torno de 10%. E os outros 90%? As mulheres, as crianças, os escravos e os estrangeiros tinham de se submeter às decisões tomadas por uma minoria. Até mesmos os cidadãos pobres estavam excluídos do processo, pois apesar de ter o direito ele não era exercido, já que debater e votar em praça não era uma profissão, ninguém era pago para isso, tratava-se de uma vocação. Ou seja, só aqueles que possuíam riquezas e escravos participavam de fato. As decisões continuavam nas mãos de uma minoria dirigente.

No século 20, após a guerra mundial, a democracia ganhou um forte significado: a luta contra o totalitarismo e a ditadura. É um período de antagonismos: o socialismo versus o capitalismo, a liberdade versus a repressão, a individualidade versus a coletividade, a ditadura versus democracia. Em um contexto em que ganhar terreno, aliados e zonas de influência eram a obsessão das duas grandes potências, a democracia e a defesa da liberdade passam a ser os discursos que prometem movimentar as massas em busca da destruição e aniquilação da ditadura na Ásia e no Leste Europeu.

Publicidade

Na América Latina chegamos ao extremo e à incoerência de implantar uma ditadura para proteger a democracia de outra ditadura. Como somos inteligentes.

Hoje, discutir democracia se restringe aos discursos praticados na Guerra Fria. Ou você é democrático ou é ditador, não existe meio termo. A democracia, tão defendida e imaculada por nós, se restringe às eleições. Então democracia na atualidade consiste meramente em escolher nossos representantes, nada mais. Democracia não é distribuição de renda justa, acesso igualitário às condições dignas de vida ou ser julgado igualmente sobre um crime cometido. Se eu voto, vivo em uma democracia, se eu não voto, eu vivo em uma ditadura. Simples assim. Democracia e ditadura foram banalizadas, esvaziadas de sentido. Um país que dá acesso ao voto mas exclui boa parcela de sua população da riqueza produzida é democrático? Um país que não permite a escolha de seus representantes por parte da população mas permite a ela o acesso justo aos serviços essenciais é ditador?

Não importa. Democracia não se discute, só se venera. #Debate