"Quem batalha consegue". "Quem quer corre atrás". "Se você não conseguiu, você foi incompetente". Não é incomum nos depararmos com esses tipos de frase clichês. Elas seguem a lógica do capitalismo, uma vez que estimulam a competitividade e eximem os governos e a sociedade de culpa por determinadas situações. Essas frases exemplificam o conceito de #meritocracia, tão enraizado em nossa sociedade. Viramos zumbis caminhando em uma direção que determinaram para a gente e condenamos aqueles que simplesmente não conseguem suportar esse caminho ou os que não aceitam seguir essa rota.

A meritocracia determina que cada cidadão é responsável pelo seu sucesso (e pelo seu fracasso).

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Está apenas em suas mãos conseguir se sair bem na sociedade. Os bons empregos, as boas moradias, os bens materiais, o prestígio, o lazer, o básico. Tudo está à sua inteira disposição, basta querer e se esforçar. Se não conquistou nada disso na vida, é porque você não se esforçou bastante. A culpa é inteiramente sua.

Engraçado darmos à coisas que compramos o nome de "conquista". Por que será? Será que isso tem o intuito de nos remeter ao esforço? Talvez. O fato é que o conceito de meritocracia passa a servir como parâmetro para julgar indivíduos na sociedade. Tachamos os mendigos, os alcoólatras, os dependentes químicos, os sem-teto, os pedintes, os pobres. São todos um bando de incompetentes e uma praga para a sociedade, segundo o conceito da meritocracia.

Nesse contexto criminalizamos o Bolsa Família: "se eu trabalho, por que eles ganham sem trabalhar?", rejeitamos totalmente o sistema de cotas: "se eu estudo pra passar no vestibular, porque o negro tem vaga reservada sem ter estudado tanto quanto eu?", repugnamos #movimentos populares que clamam por moradias: "Por que esses vagabundos não pagam aluguel, como eu faço?", recriminamos as greves: "só querem saber de atrapalhar o trânsito ao invés de trabalhar".

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O que precisamos compreender é que o conceito de meritocracia é bonito, poético, bem construído e provido de muito sentido. Seria a sociedade perfeita se não houve um pequeno detalhe: a diferença de oportunidades. Como conseguir um bom emprego se na infância, em virtude da pobreza e da miséria, você não pôde ao menos aprender a ler e escrever? Como entrar em uma conceituada universidade se você só estudou em precárias escolas públicas enquanto uma pequena parte da população teve condições de pagar os melhores colégios e cursos pré-vestibulares? Como falar pra uma pessoa pagar aluguel se os rendimentos dela, devido à precariedade de seus estudos, mal são suficientes para se alimentar, quanto mais adquirir um imóvel inteiramente por conta própria? A meritocracia acaba se tornando um mito, uma utopia, algo sem sentido e enganoso. Como cobrar sucesso de uma pessoa que ao longo da vida não teve as mesmas oportunidades que eu para competir nesse mundo feroz? Eu devo acreditar que conseguirei alcançar, a pé, aquele que corre com uma Ferrari? Complicado, não?

Os programas sociais, seja por transferência de renda, concessão de moradias populares, sistema de cotas e outros tantos que uma parte da sociedade considera injustos, são essenciais para igualar oportunidades, permitir ao pobre, ao negro, ao sem-teto, ao desempregado e a tantos outros grupos excluídos pleitear de forma igualitária aos demais os sonhos de vida.

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Infelizmente, a população marginalizada acaba absorvendo, pura e simplesmente, as opiniões das classes média e alta e acabam repetindo seus mantras. Isso é terrível, já que as pessoas deixaram de reconhecer no negro, no pobre e no sem-teto membros da mesma classe social que elas. Criticamos quando devíamos apoiar. Lutamos por algo não é nosso, que nunca almejamos, mas que aprendemos a defender cegamente em prol de uma elite corrupta e predatória. #Bolsa Familia