Um áudio em que o jornalista Alexandre Garcia fala sobre a "ideologia de #Gênero" tem sido compartilhado pelas redes sociais na forma de alerta, contendo diversas falácias a respeito de questões que envolvem sexo e gênero, com informações deliberadamente distorcidas (se por incompetência da capacidade de leitura do jornalista em língua inglesa ou por desonestidade intelectual, não há como saber).

Garcia começa seu discurso dizendo que o alerta é feito pelo presidente da Associação Americana de Pediatras, induzindo o telespectador a crer que se trata de uma instituição importante do país. Contudo, essa associação à qual o jornalista se refere não é a American Academy of Pediatrics (AAP), principal órgão representante de profissionais de pediatria dos Estados Unidos, contando com aproximadamente 64 mil membros e fundada em 1930.

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O texto intitulado "Gender Ideology Harms Children" foi publicado em agosto pelo American College of Pediatricians (ACPEDS), grupo formado por profissionais conservadores que seguem valores judaico-cristãos, os quais consideram estar acima da ciência.

Trata-se de uma associação que é abertamente contra a adoção de filhos por casais homossexuais e que tem se destacado nos EUA por difundir mentiras e estudos tendenciosos com o objetivo de prejudicar a comunidade #LGBT. Hoje, conta com 500 membros, tendo sido classificada pelo Southern Poverty Law Center como um grupo de ódio.

A nota de alerta do ACPEDS começa por confundir sexualidade e sexo biológico logo em seu primeiro item, o que demonstra uma falta de conhecimento adequado acerca do tema. Ademais, o texto segue afirmando que características relativas ao que é masculino e feminino são biologicamente determinadas, como se questões socialmente desenvolvidas nos indivíduos estivessem associadas à biologia.

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A respeito da transexualidade, a nota a aborda como uma patologia, uma doença que precisa ser tratada. Entre os membros que assinam o texto, está Paul McHugh, médico conhecido por suas opiniões contrárias à transição de indivíduos transgênero e por ser um ativista contra os direitos LGBT.

No passado, McHugh foi chefe de psiquiatria no hospital Johns Hopkins, mas não ocupa mais o cargo. No entanto, segundo a fala de Alexandre Garcia, ele seria o presidente da tal Associação Americana de Pediatras e chefe de psiquiatria do John Hopkins, sendo tratado pelo jornalista como uma verdadeira autoridade no quesito gênero - algo que, definitivamente, não é.

Uma suposta pesquisa mencionada por Garcia, realizada na Suécia, teria apontado que pessoas transgênero são mais propensas a cometer suicídio devido à transição, dizendo que as chances de um adulto que passou por tratamento hormonal e cirurgia de redesignação são 20 vezes maiores. Acontece que esse estudo foi mencionado por McHugh em artigo para o Wall Street Journal, tendo o próprio médico interpretado erroneamente os dados.

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A autora do estudo original, Dra. Cecilia Dhejne, concedeu uma entrevista negando as estatísticas e criticando a forma como os dados gerados por sua pesquisa ainda vêm sendo distorcidos para favorecer um discurso contra pessoas trans. A pesquisa foi realizada com o intuito de abordar cuidados de saúde mental a pessoas transexuais após a cirurgia e que somente transexuais que já haviam passado pela redesignação foram entrevistados. O artigo original ainda alerta, claramente, que não é a transgeneridade a causa dos transtornos mentais das pessoas entrevistadas.

Na verdade, o que se descobre é o contrário: 95% dos indivíduos que passaram pela transição se consideram felizes com o resultado, segundo outro estudo sueco realizado em 2009. No caso da pesquisa de Dhejne, feita em 2011, a comparação foi feita entre pessoas que passaram pela cirurgia antes de 1989 e os índices de mortalidade foram confrontados com o da população geral. Assim, há um recorte muito específico em termos de idade, voltando-se para um período em que os serviços médicos oferecidos a indivíduos transgênero eram ínfimos. #Transfobia