Bastou ser noticiada a morte de George Michael para começarem a pipocar especulações de que ele teria morrido "de #AIDS". Sim, o #HIV/Aids pode levar alguém à morte. No entanto, desde 1996, quando surgiu a terapia antirretroviral altamente ativa (HAART, na sigla em inglês), um soropositivo pode ter excelente qualidade de vida e uma expectativa de vida similar à de uma pessoa não portadora.

Atualmente, via de regra, as pessoas que morrem em consequência do HIV/Aids fazem parte de dois grupos, infelizmente: as que descobrem muito tarde, ou as que não têm acesso ao tratamento. Duas condições em que dificilmente George se encaixaria.

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Ademais, gays – e portadores do HIV –, como todos os demais, podem ter infarto, diabetes, AVC, ser atropelados, sofrer latrocínio, pegar pneumonia, desenvolver câncer, anemia, enfisema, aneurisma... e quaisquer outras condições potencialmente fatais que nada têm a ver com o vírus, ou com a Aids.

É verdade que o amor da vida do cantor, Anselmo Feleppa, faleceu de complicações relacionadas à Aids em 1993. Entretanto, seria incomum atribuir a mesma causa de morte a Michael 23 anos depois de Feleppa ter falecido e mais de 20 anos depois do advento da HAART. Afinal, falamos de um cantor que não apenas era bem informado, mas engajou-se na luta contra a doença. A questão, portanto, não é se Michael tinha HIV, mas a conclusão precipitada de que essa foi a causa de sua morte.

Seu caso pode ser contrastado com o de Charlie Sheen, cujo diagnóstico, infelizmente, e contra sua vontade, chegou a público.

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Não obstante a vida sexual tão ou mais movimentada do heterossexual Charlie, ninguém nunca havia ventilado antes possibilidade de ele ser portador. Agora, que já se sabe, ele se declarou indetectável, o que foi aceito sem mais delongas.

#George Michael, gay, porém, morreu devido às "complicações" com todo o histórico de militância e informação e em plena era da terapia eficaz. Fundamento? Ao contrário do diagnóstico sacramentado de Sheen, a coincidência de seu ex-companheiro ter sido uma vítima da Aids há mais de duas décadas...

Impossível não intuir que as "especulações" escondem um julgamento moral, e, na sequência, tudo que hoje se sabe sobre o HIV/Aids em termos de tratamento, prevenção, indetectabilidade e expectativa de vida e mesmo sobre o curso natural da doença – que, sem tratamento, tradicionalmente leva a óbito mediante uma debilidade progressiva, e não repentina – é esquecido. A causa da morte de George Michael não foi inicialmente revelada em público, o que é um direito dele e daqueles que lhe são próximos.

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Sendo o HIV/Aids ou não, o que nos resta é lamentar o passamento de um artista maravilhoso, que merece todo o respeito pelo conjunto de sua obra.

Vamos parar com esse vício terrível de toda vez que um gay morre, a causa ser a Aids, porque fatalmente isso revela homofobia e profundo preconceito contra os portadores da doença. Ora, já não saímos da década de 1980?

Soropositivos morrem por outras razões sem ser sua condição sorológica. Aliás, atualmente, eles muitas vezes morrem por outras razões. Se um gay, ou um portador ou portadora do HIV, tiver um infarto fulminante, ele ou ela morreu de infarto, porque HIV ataca linfócitos T CD4+: não concede "superpoderes" ao coração. Se desenvolve câncer no pâncreas e morre disso, a causa da morte foi o câncer, porque o HIV também não é quimioterápico. Em suma, soropositivos morrem por "n" razões sem ser o vírus ou a Aids – e, se me permite dizer, você também vai.