Acreditem, o Brasil já passou por racionamento de gás de cozinha. Era crise daquelas, marcada por forte inflação, instabilidade política, impeachment do Collor em curso.

Para a surpresa e alegria de muitos, o Brasil cresceu de lá pra cá. Tivemos o Cruzeiro Real, a URV e, por fim, o Real. Já era permitido ter mais comida sobre a mesa, talvez financiar a primeira TV a cores, talvez comprar o primeiro tênis importado. As mudanças não paravam de ocorrer. Nossa casa já tinha uma linha telefônica, não precisava sair pela cidade procurando ficha de orelhão para ligar pros parentes. Eles, os telefones públicos, mudaram para o sistema de cartões e era possível comprar 20 fichas numa única tarjeta.

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A urbanização chegava, finalmente, à periferia de Brasília. Asfalto, água encanada, escola, posto de saúde, polícia nas ruas e a cidade, antes tida como assentamento, ia ganhando contornos mais nítidos de habitat urbano. As famílias inebriaram-se com a possibilidade de financiar tudo, até o próprio ócio. O governo socialista, de esquerda, que fez muito pelos pobres, fez também pelos mais ricos, donos de meios de produção de bens. Os carros ficaram mais baratos, a internet popularizou-se, os esquemas de corrupção institucionalizaram-se, o dinheiro era coisa fácil, rápida, supérfluo.

Acabou o sonho. Acordamos sem acordo algum. Voltamos à vida exatamente como ela é e passamos, de um tempo pra cá, a nos queixar de tudo. O Facebook, maior país da internet, deu voz demais aos imbecis e às suas formas de expressão - Eco, o profeta ateu, estava certo.

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Chegamos ao ponto de consumir banda larga para protestarmos contra a malograda Uva Passa. Brincadeiras à parte, essa reclamação reflete bem o que nos tornamos: pessoas pouco resilientes, que pretendem resolver os dilemas da vida com pouco diálogo e poucas ações. Com base nos nossos não conhecimentos de tudo opinamos sobre a morte, a vida, a economia, a política, o futebol e damos vereditos sobre quem deve viver e quem deve morrer. Por que criamos uma geração de pessoas que reclamam de tudo? Porque boa parte deste novo Brasil não foi conquistado por essa geração. Ela já nasceu sob o sol da prosperidade, em que os serviços mais básicos já estavam à beira de casa. Essa geração não caminhou léguas até uma biblioteca, pois já tinha o Google em seu smartphone. Essa geração não teve que descobrir endereços, telefones fixos ou mesmo escreveu uma cartinha de amor para a paixão recém-descoberta. Bastou um perfil em rede social para demonstrar que se sabe pouco de ortografia e de bom flerte.

A nova geração, nascida pouco depois disso tudo, não sabe o que ocorreu no país em que vive.

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Seja aqui no Distrito Federal, seja em qualquer grande centro desta Terra de Santa Cruz, o povo não conhece sua mais recente história. A escola, massacrada pelo descaso de poucos e despreparo de muitos, não contou o que aconteceu.

Enquanto o cidadão de 20 anos atrás lutava para colocar algo a mais no prato em que comia, essa geração quer tirar o que acha sem graça, pouco ou nada gostoso. A uva passa, ícone do algo a mais na ceia de fim de ano, virou o símbolo de uma geração que reclama demais, fala demais, faz de menos e sabe nada sobre tudo. Nosso admirável mundo novo permanece no campo da possibilidade platônica. Os jovens de hoje estão politizados, indignados e pouquíssimos prontos para transformar o Brasil.

Nossa geração é a geração uva passa: quem gosta, coloca; quem não gosta, tira. Seja comida, algo, alguém, o passado, o presente ou o futuro, basta uma opinião mais ou menos convencida.

E pronto. #Uvapassa