Nesta quarta-feira (14), o Brasil perdeu um de seus maiores ícones progressistas: dom Paulo Evaristo Arns. Conhecido por defender a causa dos oprimidos e lutar contra injustiça e desigualdade, o arcebispo marcou #História ao enfrentar a ditadura apenas com a força de suas ideias e a coragem de quem sabia que estava lutando pelo lado correto da História.

Em 1969, defendeu padres dominicanos acusados de proteger militantes opositores ao regime. Dentre eles estava Frei Tito, que se suicidou em agosto de 1974 devido ao trauma deixado pela tortura que sofreu. No ano de 1972 criou a Comissão da Justiça e Paz de São Paulo. Em 1973, durante o governo Médici, celebrou uma missa em homenagem a Alexandre Vanucchi Leite, estudante universitário morto pela repressão.

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Nesse mesmo ano, entregou ao general Golbery do Couto e Silva um dossiê sobre 22 desaparecidos políticos.

Já em 1975, vivenciou um dos casos mais notórios da repressão a que o país estava submetido. Trata-se do caso Vladimir Herzog, jornalista da TV Cultura assassinado após inúmeras sessões de tortura no DOI-CODI. O caso Herzog ganhou destaque devido a fraude criada pelos militares para justificar sua morte, alegando que ele havia se suicidado. A polêmica foto em que Herzog aparece com o corpo pendurado na janela da cela enforcado por um cinto-com os pés tocando o chão-causou indignação na sociedade, pois era a primeira vez em que a ditadura precisaria dar explicações sobre um crime praticado.

Dom Paulo, juntamente com o rabino Henry Sobel, celebrou um histórico ato ecumênico na catedral da Sé em 31 de outubro de 1975, que reuniu cerca de 5 mil pessoas, que fizeram um protesto silencioso contra aquela bárbarie.

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Entre 1979 e 1985, coordenou junto a Jaime Wright - de forma clandestina - o projeto Brasil: Nunca Mais, onde reuniu mais de um milhão de cópias das páginas do Superior Tribunal Militar (STM) denunciando as prisões ilegais e torturas praticas pelo governo militar. Esses, que são apenas alguns dos episódios que marcaram a vida e a obra do cardeal, são suficientes para saber que sua trajetória foi marcada pelo "cuidar de pessoas".

"Ele deu o colo que ela precisava. Ele é para nós algo além de tudo o que ele é para os outros"- Ivo Herzog

Assim que a morte de dom Paulo foi confirmada, intelectuais, artistas e autoridades publicaram homenagens ressaltando seu caráter, mansidão, coragem e fé. Dentre as homenagens, estava a do filho de Vladimir Herzog, que na época da morte do pai tinha apenas 9 anos. Chamando-o de "Cardeal da liberdade", o Instituto Vladimir Herzog publicou uma nota que, entre outras palavras, ressaltou que dom Paulo: "Continuará sempre nos corações dos que prezam o livre arbítrio e por ele lutam.

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Daqueles que não toleram ditaduras e nem com ela compactuam".

No atual cenário político-social do país, a morte do "Guardião dos Direitos Humanos" deve servir para que toda sua trajetória seja relembrada e seguida por aqueles que, assim como ele, lutam contra as mazelas sociais e acreditam no poder da liberdade, democracia e justiça para a construção de um país. O legado deixado por ele deve servir para que nunca mais compactuemos e nos calemos diante de qualquer tipo de opressão.

A grandeza, serenidade e força com que dom Paulo conduziu sua vida religiosa deve servir de parâmetro para toda e qualquer religião. Cuidar de pessoas abandonadas pelo poder público ou daqueles que foram crucificados em vida apenas por lutarem por seus direitos foi seu maior compromisso por mais de cinco décadas, e por esse motivo, nos despedimos do cardeal com a esperança de que as próximas gerações tenham a sorte de encontrar um líder que seja movido pela fé em Deus e pelo amor a seu povo.