A morte é inevitável e por mais que prolonguemos nossa vida, dando condições e qualidade a ela, não é possível escapar do toque do fim. Simplesmente, porque ele vai chegar, para mim e para você.

Os desfechos podem ser variados e mostram como não temos controle sobre a maioria das coisas. Você pode acordar, tomar café, sair para trabalhar, ser atropelado e morrer. Pode tratar de uma insuficiência cardíaca, cumprir religiosamente todas as orientações médicas, ter sido atleta na juventude e em uma quarta-feira à tarde, morrer. Pode descobrir o diagnóstico de uma “doença terminal”, viver mais tempo do que a medicina imaginava, conseguir realizar seus últimos desejos e depois, morrer.

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Ou pode se desesperar com a notícia de uma doença crônica e morrer em um desmoronamento de terra pelas chuvas de verão.

A verdade é que, na maioria das vezes, salvo exceções de acidentes e desastres, onde não há tempo hábil, se morre dentro dos hospitais. Até o último momento, existe a tentativa de reversão do quadro, da vitória da vida, da chance de se viver um pouco mais. Ainda bem! Sim, ainda bem e sempre ainda bem, para todas as situações onde a possibilidade de dignidade da vida humana prevaleça. Parece simples, mas na prática algumas coisas se mostram bastante complexas.

Morre melhor quem morre como?

Muitos aspectos precisam ser considerados para se chegar nesta resposta (que não é única) e segundo o Índice de Qualidade de Morte de 2015, da Economist Intelligence Unit, o Brasil ainda tem um longo caminho pela frente.

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Mas peço licença para tecer algumas considerações sobre essa tal de "boa #Morte".

Lembro-me de um movimento intenso a alguns anos atrás sobre a possibilidade do paciente morrer em casa. Discussões colocavam os hospitais como vilões, ambientes hostis e inaptos a lidarem com algo que excedesse o corpo físico. Dentro dos hospitais havia ainda um lugar pior, as UTIS, um submundo incapaz de oferecer uma morte humanizada.

A experiência foi mostrando um outro lado muito importante, de que nem todas as famílias e pacientes conseguem lidar com a morte em casa e algo que a princípio poderia ser a medida mais humanizada, a “morte romantizada” em casa, podia gerar intenso sofrimento.

Eu já vi muita gente morrer. Ofereci assistência psicológica a pacientes que dividiram suas histórias comigo antes de morrer e famílias que perderam as pessoas mais caras que elas tinham, acompanhei pais, filhos, cônjuges e amigos na hora de ver o corpo desfalecido. Em 10 anos de hospital e a maioria em UTI eu acompanhei pessoas vivenciando as dores da perda e entendi que morre bem, quem pode ser ouvido.

É impossível pensar em políticas em Cuidados Paliativos, humanização da assistência, instrumentalização de equipes e melhoria na qualidade de morte, sem considerar a Bioética e seus princípios fundamentais: autonomia, não maleficência, beneficência, justiça e equidade.

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Todos, cada um a sua forma, dizem sobre a importância do respeito ao ser humano e penso que ouvi-lo é antes de tudo, respeitá-lo.

E se for para morrer de excesso, que seja de amor!

Ponto nevrálgico nas discussões em saúde é o da obstinação terapêutica. Até onde ir? Quem decide? Como decide? O que a população já sabe sobre as Diretivas Antecipadas de Vontade? Como ajudar as famílias? Como ajudar as equipes?

O excessos de protocolos institucionais parecem não elucidar todas as questões humanas. Embora necessários, são eles que devem se moldar as questões relativas aos dilemas da vida humana e não o contrário, portanto, a premissa básica do “caso a caso” continua sendo a mais valiosa.

Insistir freneticamente pode deixar rastros de muito sofrimento pelo caminho. Se para muitos ainda é difícil aceitar a morte, é fundamental que a cada dia possamos falar e falar e falar sobre ela. Não para violentar, mas para prevenir que outros sejam violentados em seu direito de uma morte digna.

Portanto, se for para morrer de excesso, que seja de amor e quando chegar a minha vez, por favor me ouça.

#cuidadospaliativos #@humanização