Quando ligamos o televisor para ver um noticiário, temos alguma certeza sobre o que encontraremos. Primeiro, algum assassinato numa viela urbana. Sempre pelos motivos mais fúteis. Algum escândalo partidário para nos indignar, porque é preciso se indignar. As chuvas que caem para levar casas e cachorros e pessoas numa só massa de água. E os levantes em presídios. Esses também têm uma qualidade eterna. Entra ano, sai ano, e sempre acontece de um bando de sujeitos empilhar seus colchões e botar fogo num corredor inteiro. E logo instala-se o caos. Helicópteros rondando o perímetro, policiais fortemente armados e gente morta. Inocentes e culpados.

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Um punhado deles.

Alguns casos são pequenos. Não chamam demasiada opção. Escapole uma dúzia. Outra permanece presa. A contagem de mortos é mínima. Mas, em alguns casos, há uma explosão inesperada de violência. Basta lembrar o Carandiru, motivo até de filme, onde morreram dezenas de presidiários, resultado de uma operação policial levada ao extremo. Ou o caso de 2001, quando facções se organizaram para parar o sistema carcerário brasileiro. E o mais recente: a chacina de #Manaus. A contagem de mortos chega a 60. E nós, os telespectadores, apenas assistimos a tudo isso pelo outro lado da TV, sem saber o que dizer, o que pensar.

Nos faz lembrar as chuvas anuais. De dezembro a fevereiro do ano seguinte. São barracos que caem, gente que morre soterrada debaixo de quilos e mais quilos de terra.

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E surgem autoridades para explicar os malfeitos. E dizer que é culpa do mal planejamento dos sujeitos prejudicados. Cismados de construir lares em beiras de barrancos em tempo de desmoronar. E o que dizer das áreas alagadas por culpa do péssimo planejamento urbano? Nesse caso, faltam palavras, pois ninguém quer se responsabilizar por uma tragédia que poderia ser evitada.

Lembremos o viaduto que desmoronou em Belo Horizonte. O prefeito da época, Márcio Lacerda, não se responsabilizou. Pouco disse sobre o caso. Em Manaus, neste exato momento, ocorre uma brincadeira no mínimo digna de pena. Batata quente. Atira-se a culpa para um lado, depois para o outro, mas ninguém tem a culpa. Não há autoridade que, diante de uma platéia, diga: "Sou eu o culpado! Me algemem! Mereço ser penalizado...".

Que a culpa tem de ser de alguém, pois ao contrário das chuvas, que por vezes caem brutas, sem que possamos fazer nada, os levantes em presídios ocorrem por razões humanas. Celulares que continuam a entrar nas penitenciárias, permitindo uma organização de alto nível por parte dos transgressores.

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Facões que vão parar na mão de encarcerados. Até armas de fogo. E ainda assim, ninguém explica o motivo. Talvez, armas e celulares e facões sejam carregados pelos ares por inteligentes pombos correios. Ou se materializam num toque de mágica. Ministros falam sobre construir mais penitenciárias, como se enfiar cinquenta sujeitos numa só cela não fosse motivo suficiente para a baderna. Para o desespero de quem já virou bicho, e não tem mais nada a perder.

E na televisão, sujeito 1 declara que pune-se mal no Brasil. O sujeito 2 diz que deve-se construir mais presídios. Outro alega que é necessário repensar políticas públicas. Mas, no final das contas, tudo será esquecido, e os levantes continuarão a ocorrer, sempre e sempre, como as tais chuvas anuais, que vêm para derrubar barracos, inundar vielas. #Eternastragédiaspresidiárias #Casos de polícia