Quando pegamos um álbum de retratos de alguém mais velho, sejam dos avós, dos tios, temos a impressão de que o país passou por variadas mudanças, não só em se tratando de moda (que essa terra já teve de tudo: cabelos armados, moda hippe, calças com boca de sino, entre tantos outros vestuários, hoje, absurdos), mas também nos meios artísticos. Quem é que nunca ouviu falar da Semana da Arte Moderna? Ou do Tropicalismo, revolução cultural comandada por Caetano Veloso e Cia. Sim, o Brasil já teve de tudo um pouco, mas ainda há em nós uma sensação que não para de latejar, e que nos toma de assalto, assim que ligamos a televisão. Chamemos, tal como os franceses, esse fenômeno de "Dejá-vu".

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Fenômeno que não é exclusivamente nosso, os contemporâneos. Não. Sempre esteve aí. Fosse na década de 60, 70, ou 80, era só o sujeito ligar o televisor e lá vinha a taquicardia, a certeza incontestável: "Já vi isso em algum lugar!".

Fundamos um novo jeito de fazer teatro, de escrever literatura, de compôr música. Nas artes, temos uma potência criadora que há de rivalizar com qualquer sociedade de primeiro mundo. No entanto, o televisor nos mostra outra realidade. Um Brasil fossilizado no âmbar do tempo. O sujeito da década de 90 ligava seu aparelho e frustrava-se diante de cenas de enchentes, de presídios incendiados por encarcerados revoltos, de cenários de fome. E assim também ocorre com o sujeito do ano de 2017, que já entediado pela eternidade do ontem, liga o seu televisor e já sabe pelo que esperar: as enchentes, os presídios incendiados, e etc, etc.

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Há uma série de coisas que unem o sujeito da década de 90 ao das décadas de 80, de 70, e, por incrível que pareça, também ao sujeito de 2017, e não é a música, ela que tanto mudou com o passar dos anos, tampouco a literatura. Ah, quem dera se assim fosse! Mas o que nos passa a sensação de irmandade, são as enchentes, os presídios incendiados, o desemprego, a violência, e tantos outros quadros dignos de um museu em homenagem ao horror. E há autoridade que ainda tenha coragem suficiente para surgir na tela e dizer: "Os mortos em Manaus não eram santos." Como se a responsabilidade pelo fazer e acontecer não tivesse de ser colocada em suas costas. Como se tivéssemos de chegar, diante de afirmação tão ímpar, á seguinte conclusão: "Sim, eles não eram santos, portanto, não é preciso fazer nada a respeito, ora essa, nenhum dos mortos merece um mínimo esforço de mudança que seja, das condições atuais de Brasil.".

Daí, talvez haja espaço para afirmações parecidas com a do governador José Melo.

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Quando padecerem mais homens vitimados pela fome, poderemos dizer: "Eles sempre sentiram fome." E o assunto estará encerrado. Quando as enchentes recomeçarem (e elas sempre voltam, eternas que são), teremos o direito de dizer: "Mas elas sempre carregaram tudo. Por que mudariam agora?". E nos fingiremos de cegos, surdos e mudos diante do televisor, sempre vendo as mesmas coisas, as mesmas enchentes e tragédias, sem mover um único dedo. Porque sempre foi assim. E sempre haverá de ser.

Talvez, o problema do ontem eterno esteja na relativização dos problemas. Dizem que a tragédia em Manaus não deve ser chorada, pois nenhum dos mortos era santo, mas digo o contrário: deve ser chorada sim! Devemos, ao menos, lamentar a condição de nosso país, onde as políticas públicas são tratadas com descaso, onde a morte de 60 soa como propaganda de margarina, onde a fuga de 200 homens perigosos, é nada mais do que um frívolo passatempo de "pega ladrão". Enquanto autoridades continuarem indo diante de câmeras para relativizar os problemas do Brasil, haveremos de continuar ligando os nossos televisores para ver as mesmas cenas, se repetindo numa eternidade mais assustadora do que a prenunciada por Nietzsche em sua teoria do eterno retorno. E seremos os velhos assentados do lado dos moços das novas gerações, daqui a trinta, quarenta anos, horrorizados em dizer: "Mas eu já vi isso aí em algum lugar...". #OBrasildoEternoOntem