O desastre ocorrido na penitenciária de Manaus escancara o óbvio: o Brasil não sabe lidar com a sua população carcerária. Fato que fica mais do que flagrante quando entra ano e sai ano, e o óbvio continua a se repetir sem que seja remediado. E o problema está na partida de batata quente que ultimamente as autoridades jogam em Manaus. A última é de estarrecer: dos 56 mortos, nenhum deles eram santos. Ainda segundo o governador José Melo, eram estupradores e bandidos da pior espécie. Como se a qualidade dos carcerários aniquilados apagasse de uma só vez a verdade da inépcia estatal em tratar de seus presos, além da teimosia em não se admitir erros, e, enfim, pensar noutros caminhos.

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Sim, é notório o esforço do ministro em se redimir do mal planejamento ao atirar a culpa de todo o episódio nos encarcerados. Todos violentos, ninguém há de negar isso, mas algo escapou à lógica do digníssimo governador: que o problema não se restringe apenas aos 56 mortos e esquartejados. É claro que eles não poderão fazer coisa alguma contra o povo, tampouco contra o digníssimo governador. Ora, eles estão mortos! No entanto, ele esqueceu de comentar a fuga de mais de 200 presos, todos eles soltos pela imensa Amazonas. Sujeitos inteiramente livres para fazerem o que bem quiserem. E que como os tais 56, não são santos.

Escapa ao ministro que o problema não está apenas na morte dos detentos. Não é como se a população quisesse redimi-los. Tirar toda a culpa de seus ombros.

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A grande questão não está no massacre, mas no que eles nos revela. Que os presídios, construídos para separar cidadão incapazes de viver em sociedade, daqueles que ao menos tentam, não cumprem com seu principal objetivo: o de proteger. Pois não podemos nos esquecer dos 200 foragidos, e que neste exato momento, podem estar roubando ou cometendo todo tipo de outros crimes, que irão prejudicar não ao governador, mas a população que mora nos arredores da unidade de segurança, que de segura nada tem. Assim como todo e qualquer presídio mediano até hoje erguido em solo brasileiro.

Até agora, não há o mais leve esboço de um projeto de modernização do sistema carcerário. Alguns podem dizer que a crise impede que algo nesse sentido seja levado a cabo. Outros, como o governador, acham que nada há para ser remediado, visto que os enclausurados não são santos, e devem mesmo é ficar enjaulados em celas mínimas e com seus braços e pernas saltando por entre as grades. E ainda segundo a autoridade, celas cheias são um bom sinal, pois demonstram que o crime está sendo energicamente combatido. Enquanto isso, os foragidos planejam seus próximos passos em liberdade, e noutros cantos desse país, outros motins vão sendo preparados às "escondidas", e talvez já tenham até data e hora para explodir. #elesnãoeramsantos