Sessenta e quatro mortos no Amazonas, 26 no Rio Grande do Norte e 31 em Roraima. Ao todo, os assassinatos nas cadeias brasileiras já superaram em número o episódio do Carandiru, em 1992, quando 111 detentos morreram em confronto com a polícia.

A crise penitenciária no Brasil impõe justa e necessária reflexão sobre o valor da vida humana. Se não somos assassinos de fato, somos entusiastas dos assassinatos de criminosos (cometidos por outros criminosos) e defensores de um sentimento marcial que justifica meios em favor de um final feliz. São outros bandidos que nos fazem justiça e nos impelem a uma catarse doentia. Nós achamos boa ou ruim a série bárbara de homicídios nos presídios brasileiros? A resposta foi dada por #Leandro Karnal, historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), durante entrevista ao jornalista Roberto D'Ávila do canal GloboNews.

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Exibida em 2 de novembro de 2016, a entrevista é bastante atual por ajudar a compreender nossa sede por justiça e por morte. Indagado sobre fundamentalismo e guerras religiosas, Karnal surpreendeu ao dar a resposta.

Roberto DÁvila: (...)eu me lembrei das guerras religiosas, quanto sangue se derramou na humanidade por causa das religiões, das cruzadas e outras. E o fundamentalismo?

Karnal: "Eu gosto de dizer em defesa da religião, apesar de não ser religioso, que nós matamos porque gostamos de matar. Se você analisar alguns dos maiores genocidas do século 20, como Stalin, a quem se atribuem 20 milhões de mortos, ou Mao Tsé-Tung, a quem se atribuem 70 milhões de mortos segundo a última biografia, são dois ditadores ateus em nome de estados ateus que mataram sistematicamente em nome de um ideal socialista. Outros ditadores de origem cristã-católica, como é o caso Hitler, Mussolini, Franco, Salasar ou outros ditadores um pouco agnósticos como Getúlio (Vargas) oscilando entre um certo ateísmo e agnosticismo mataram em nome de outros princípios. Ou seja, o que eu estou dizendo é que nós matamos em nome de Deus, nós matamos apesar de Deus e contra Deus. Se nós eliminarmos Deus, nós mataremos em nome da eugenia, da supremacia da democracia liberal ocidental, mataremos em nome de outros motivos e não os de Deus. O fato de que hoje há fundamentalistas, entre eles islâmicos, não quer dizer que no Ocidente não haja fundamentalistas, entre eles liberais capitalistas, que acham que esse deve ser o único valor e o único caminho imposto ao mundo. Nós matamos porque gostamos de matar, sempre, em todas as épocas."

Entrevista na íntegra

#Violência #Comportamento