Não é de hoje que o palavrão é motivo de polêmica. Desde a Grécia antiga, havia quem, diante do absurdo, ou da mais abjeta traição, berrasse em alto e bom som: "Seu filho de uma...". Há até registros de que Júlio César não tenha dito a famosa frase de Shakespeare, uns minutos antes da morte, mas vociferado: “Desgr##!" Mas quem há de realmente saber? Única coisa possível de afirmar, é que o palavrão é elemento onipresente em toda cultura. Não há língua em todo esse planeta que não conte com um sonoro #####!

No entanto, apesar de estar lá e cá, subir e descer do Oiapoque ao Chui, ou vice-versa, o palavrão ainda é encarado com desconfiança.

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E olhe que já tivemos celebridades que os diziam às dúzias, em plena rede de televisão brasileira! Dercy Gonçalves era senhora do palavrão. Mantinha um punhado deles na coleira. E em época em que o pudor estava em alta e dizia muito do caráter de um sujeito, Dercy se colocava diante de uma câmera e cuspia logo uns três, em sequência, sem nem meio minuto para tomar um ar. E o público estarrecido do outro lado da tela, só conseguia pensar: Mas então, o tal do palavrão serve mesmo para falar? Pois antes de Dercy e os vanguardistas da revolução, havia aquela raiva recatada, de quem não quer realmente odiar. A raiva de quem dizia canalha. Ou pulha. Ou apenas mandava às favas. Mas depois de Dercy e de toda uma revolução cultural brasileira, o palavrão perdeu o mistério, e o desprezo por ele caiu por terra.

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O brasileiro aprendeu a falar palavrão. E parece ter gostado. Até no amor ele entrou! Há quem diga: “Eu te amo pra #######!”

Mas há quem ainda o combata com todas as forças. O político de direita. Os líderes religiosos. E fica a pergunta no ar: Mas por quê? Ora, por acaso o palavrão é obra do diabo? Pode ser que sim. Ou não. Mas o fato é que já não há como negar o palavrão. Ele está no nosso dia-a-dia. Na saúde e na doença, lá está ele, firme! Pois há emoções humanas que os vocábulos comuns não conseguem expressar. Por exemplo: no parágrafo anterior, falei brevemente de amor. Mas prestem atenção na palavra, separadas as sílabas, dita bem devagar: A-M-O-R. Assim, sozinha, não quer dizer nada. Mesmo num texto de alto teor poético ainda incorre no risco de parecer insincera. Ainda mais quando utilizada com o objetivo de conquistar um público. Uma mulher. Tanto que dizer que se ama já parece banal. O jovem o faz quando se descobre irremediavelmente apaixonado por uma menina qualquer. Lembrando que paixão não é amor.

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É mais como cantava Zeca Baleiro: “Lenha pro fogo acender...” E só.

Esqueçam a palavra amor. Apenas um amontoado de letras. Que almejam expressar um sentimento que, via de regra, segue banalizado pela espécie humana. O sentimento por detrás das letras fica melhor interpretado com a vestimenta de um palavrão. Um homem que diz para a mulher amada que “ela é boa pra #######!”, haverá de convencer mais do que um que diz "Eu te amo!", com algo daqueles personagens românticos do século passado. Daqueles personagens dramáticos em seus quereres, tanto, que não convenciam nem o próprio autor do drama. E assim também funciona com o ódio. A palavra "canalha" e todos os seus paralelos possíveis em português brasileiro já não cabem na arte do bem odiar. É por demais educado. Para convencer com o ódio, serve mais o cabeludo de um palavrão, e dito aos berros, como quem quer matar.

Talvez, a perseguição do palavrão se deva ao fato de que a sinceridade assusta. E é difícil demais um sujeito não conseguir ser sincero quando diz um. Quando diante do absurdo soltamos um sonoro “Pu## que o p####!” não estamos dramatizando, bancando os atores em pleno palco, mas realmente vivendo aquele sentimento que nos apunhala bem no meio do coração, pedindo para sair. E há gente que não sabe lidar com a verdade. Escuta o palavrão e imediatamente compreende o ódio, o amor embutido nele, mas, mesmo assim, prefere tampar os ouvidos, incapaz de acreditar que um ser humano possa ser assim, tão espontâneo, ir tão direto ao ponto. #Sociedade #AmorPeloPalavrão #xingamentos