Temos em nossa sociedade a consciência de que o amor – a maior inspiração dos músicos e poetas – é o sentimento mais sublime encontrado nos seres humanos. Sua intensidade é capaz de oferecer a mais prazerosa sensação de bem estar, bem como sua falta pode provocar angústias de tirar o sono. Quando presenciamos a união de um casal apaixonado, nosso sentido de alteridade liberta uma comoção genuína gerada pelos momentos doces experimentados na presença do amor. Entretanto, o senso comum revela sua face macabra quando vemos um casal formado por uma pessoa que preenche os requisitos de beleza adotados pela comunidade geral e outra que não se encaixa nesses padrões, e isso denuncia mais do que a ditadura da beleza – a dominação da zona de conforto.

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Para entendermos por que pensamos assim devemos analisar como a atração pessoal pode se caracterizar sem se encaixar nos aspectos físicos esperados comumente.

Há muitos séculos os intelectuais ganharam espaço no mundo do encanto ao demonstrar sua sabedoria e, com isso, fazer com que seu mundo fosse atrativo aos demais. Podemos entender esse grupo pelos “intelectuais específicos” – usando a nomenclatura de Foucault – que seriam aqueles especialistas de suas áreas, mas falamos principalmente dos “intelectuais universais”, formados principalmente por escritores. Estes últimos se sobressaíam aos demais por demonstrar sabedoria através da prosa e do verso, o que agregava beleza artística à beleza do saber.

Tomando a arte por manifestação exterior do ser, podemos pensar os artistas como aqueles que se expressam para causar reflexão a quem se defronta com a obra, e aqueles que expõem a beleza do viver contida dentro de si, através dos movimentos corporais, do canto ou da poesia.

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Revelando suas habilidades artísticas, esses atores se envolveram em um manto de beleza que dizia mais a respeito do seu interior que de seus traços físicos, entrando no grande grupo de pessoas consideradas atraentes.

Alguém que se encontre fora desta classe de pessoas detentoras de beleza tende a se convencer de que nunca conseguirá emergir a tal patamar por não ter sido agraciado com tamanha boniteza no momento de seu nascimento. A sociedade como conhecemos – baseada em dominação – faz questão de confirmar esse pressuposto, estabelecendo padrões de beleza extremamente rigorosos e quase impossíveis de se atingir sem que se desprenda fortunas de dinheiro e sacrifícios à própria saúde. A questão é que esses padrões são meramente estéticos, o que perpetua o imperialismo da fisionomia sobre a beleza interior.

Sendo assim, crescemos acostumados a rotular um casal formado por uma pessoa bonita e uma pessoa feia, esquecendo-nos completamente de que essa pessoa de semblante assimétrico pode carregar encantos nunca admirados por nós.

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Dessa forma, não só damos força ao instituto da beleza física, como nos esquecemos de encontrar e desenvolver nossas próprias formosuras interiores.

É pouco comum encontrarmos alguém que aprendeu uma nova habilidade na vida adulta que não esteja ligada à atividade que exerce para garantir seu sustento. Em nossa vida cotidiana estamos acostumados a gastar o tempo livre com atividades que não provocam o exercício pessoal de evolução intelectual e artística, de maneira que, se não aprendemos a pintar quadros quando tínhamos onze anos, estamos condenados a passar o resto da vida conformados com o fato de apenas admirar obras alheias, sem nunca participar deste nicho que desejamos e, em praticamente todos os casos, temos capacidade de adentrar.

Com o fomento através da mídia e demais aparelhos ideológicos do Estado, nos afundamos em nossa própria zona de conforto e nos esquecemos do quão belo somos e, principalmente, do quão belos poderíamos ser se nos dedicássemos mais ao crescimento pessoal e investíssemos em nossas habilidade que são capazes de traduzir nossa essência em encanto. O que nos resta é sentar diante da televisão e invejar aquele cara feio que casou com a atriz interesseira. #2017 #padroesdebeleza #Opinião